O grito

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;

e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

Manuel António Pina, Os Livros, Assírio & Alvim.

resgatado daqui.

isto é o meu corpo

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.

José Tolentino Mendonça, Estação Central, Assírio & Alvim, 2012

já então a raposa era o caçador

“Não é a língua que é a pátria, mas sim aquilo que dizemos”, escreveu Jorge Semprúm em A Escrita ou a Vida (ASA,1995). Todas as ditaturas põem as línguas ao seu serviço, é sabido. E para os exilados essa língua acaba, por vezes, por se tornar hostil, o que parece não ter sido o caso de Herta Müller. ” A pátria é o lugar a que se pertence, não é o lugar em que se nasce. Mas às vezes sinto que a Roménia é a minha pátria: chega-me uma certa nostalgia em lugares quentes porque me faz lembrar o Verão romeno. Ou quando vejo certas árvores, o marmeleiro. Isso acontence-me muito na Bulgária, ou em Barcelona…onde num dia quente, quando chove, lembra-me a Roménia.”

Müller afina o critério de qualidade de um texto pela capacidade deste provocar o diálogo com o leitor “de outra forma que não palavras”. Isto, segundo ela, é tão válido para a poesia como para a prosa, pois o texto literário tem que tocar mais coisas do que aquelas que ele próprio nomeia e descreve : fazer uma espécie de “desautomatização” da linguagem e de inovação metafórica.

Herta Müller, no último Ípsilon, por José Riço Direitinho.