já então a raposa era o caçador

“Não é a língua que é a pátria, mas sim aquilo que dizemos”, escreveu Jorge Semprúm em A Escrita ou a Vida (ASA,1995). Todas as ditaturas põem as línguas ao seu serviço, é sabido. E para os exilados essa língua acaba, por vezes, por se tornar hostil, o que parece não ter sido o caso de Herta Müller. ” A pátria é o lugar a que se pertence, não é o lugar em que se nasce. Mas às vezes sinto que a Roménia é a minha pátria: chega-me uma certa nostalgia em lugares quentes porque me faz lembrar o Verão romeno. Ou quando vejo certas árvores, o marmeleiro. Isso acontence-me muito na Bulgária, ou em Barcelona…onde num dia quente, quando chove, lembra-me a Roménia.”

Müller afina o critério de qualidade de um texto pela capacidade deste provocar o diálogo com o leitor “de outra forma que não palavras”. Isto, segundo ela, é tão válido para a poesia como para a prosa, pois o texto literário tem que tocar mais coisas do que aquelas que ele próprio nomeia e descreve : fazer uma espécie de “desautomatização” da linguagem e de inovação metafórica.

Herta Müller, no último Ípsilon, por José Riço Direitinho.

o horror

Em “o horror económico” de viviane forrester , a romancista e ensaísta coloca em epígrafe pensamentos de pascal e iluminações de rimbaud.

Certa noite, por exemplo-, retirado dos nossos horrores económicos – ele estremece à passagem das caçadas e das hordas. Rimbaud

Não convém que [o povo] sinta a verdade da usurpação : introduzida outrora sem razão, tornou-se razoável; convém que seja encarada como autêntica e eterna, ocultando-se-lhe a origem, se não quisermos que ela termine a curto prazo. Pascal

para acabar de vez com a cultura

Sobre a condição humana:”Se o homem fosse imortal, já imaginou o tamanho das contas do talho?”

Sobre a religião:”Não acredito numa vida depois da morte, apesar de ter sempre pronta uma muda de roupa interior”.

Sobre a literatura:”Toda a literatura não passa de uma nota de rodapé do Fausto. Não faço a mínima ideia do que quero dizer com isto”.

Woody Allen, para acabar de vez com a cultura, pág 120.

Um quarto com vista

Sabemos que vimos dos ventos e que a eles voltaremos, que toda vida é talvez um nó, um laço, uma nódoa na tranquilidade eterna. Mas por que haveria isto de tornar-nos infelizes? É preferível amarmo-nos uns aos outros, e trabalharmos e deleitarmo-nos. Eu não acredito neste mundo-sofrimento.
Miss Honeychurch concordou.
– Então faça com que o meu rapaz pense como nós. Faça-o pensar que ao lado do eterno Porquê há um Sim, um Sim transitório, se quiser, mas um Sim.

Edward Morgan Forster, Um quarto com Vista, pp 31.

L

Há cidades belas e cruéis, como Paris. Ou elegantes e cépticas, como Roma. Ou densas e obsessivas, como Nova Iorque. Londres não pode ser reduzida a antropomorfismos. Séculos de paz civil, de comércio próspero, de empirismo e de céus cinzentos tornaram-na indiferente como a própria natureza. (…) Por uma razão ou outra, Londres reúne as condições ideais para que a vida floresça.
Enric González, História de Londres, Tinta-da-China.

Se pudesse escolher, viveria em Londres. Se se se se se se se se se se se se se