o horror

Em “o horror económico” de viviane forrester , a romancista e ensaísta coloca em epígrafe pensamentos de pascal e iluminações de rimbaud.

Certa noite, por exemplo-, retirado dos nossos horrores económicos – ele estremece à passagem das caçadas e das hordas. Rimbaud

Não convém que [o povo] sinta a verdade da usurpação : introduzida outrora sem razão, tornou-se razoável; convém que seja encarada como autêntica e eterna, ocultando-se-lhe a origem, se não quisermos que ela termine a curto prazo. Pascal

para acabar de vez com a cultura

Sobre a condição humana:”Se o homem fosse imortal, já imaginou o tamanho das contas do talho?”

Sobre a religião:”Não acredito numa vida depois da morte, apesar de ter sempre pronta uma muda de roupa interior”.

Sobre a literatura:”Toda a literatura não passa de uma nota de rodapé do Fausto. Não faço a mínima ideia do que quero dizer com isto”.

Woody Allen, para acabar de vez com a cultura, pág 120.

Falatório

A rtp memória (espero que não seja uma memória curta) continua a dar-nos algumas pérolas antigas. O programa Falatório é um deles. O último apresentado pela Clara Ferreira Alves tinha como convidados Pedro Cabrita Reis, Julião Sarmento, Joana Vasconcelos e Paulo Mendes. Uma discussão acesa, passada no ano de 1997, em que se fala na imortalidade da obra e do artista. E Joana Vasconcelos foi a artista que menos falou no programa. Mas em 2012 é a artista em que se fala mais.

Janelas

Gosto de janelas, altas e baixas, coloridas e descoloridas, desengonçadas e majestosas, no fundo, gosto das janelas nos seus vários géneros. Gosto da objectualidade do objecto-janela e da subjectividade do subjectivo-janela. De tantos objectos do mundo, tenho uma eleição especial pelas janelas. Na minha vida, não me aconteceu quando o meu pai me pegou no colo e levou-me até a janela e me disse é este o mundo. Não podia bem ser assim. (Muitas luzes pelo caminho e não sei por que fio eu sou levada). Sei que todas às vezes que “errei” para uma nova casa, semprei tomei como primeiro passo conhecer a janela do meu quarto. Deixa-me ver o que vejo daqui, deste canto, e deste lado, agora do esquerdo. As janelas de todos os quartos em que já vivi, lembro-me uma especialmente, que tinha mesmo à minha frente um limoeiro e se ouvia muito bem o vento. Como objecto, que abre para fora e para dentro, de mim mesma também, a janela também pode ser o pensamento. Espera-se pela janela. Será que a esperança tem lugar numa janela?

Da janela, como o melhor enquadramento para ver os crepúsculos, estes corredores que têm um papel colorido. Da janela, como o melhor lugar para receber a luz.Da janela para ver o mundo quieto ou da janela para começar um filme. Quantos? Marguerite Duras começou um por uma janela. Truffaut era obcecado por elas, através delas, comunicando por elas. Hitchcock filmou a melhor aula sobre perspectiva em Janela Indiscreta. Qual é o filme de western em que não se vê um cowboy mirando por uma janela com uma arma em punho? Em quantos filmes de noir vê-se todo o mistério pousado entre um entreolhar numa persiana e uma sombra que passa firme pelas paredes? Como é que se esquecem as janelas de Tarkvoksy, as do Espelho e as da Nostalghia, se elas são autênticos quadros?

A janela como fuga, como entrada de ar e de luz, como ideia de vazio e de nada, como ângulo de visão. Como em Tabacaria, Fernando Pessoa começa Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é. As cidades como janelas em brasas com cortinas/ puras, como num lugar de Herberto Hélder. As janelas altas de Larkin: Rather than words comes the thought of high windows:/The sun-comprehending glass,/And beyond it, the deep blue air, that shows /Nothing, and is nowhere, and is endless. Ou como diz Rilke :Tu me proposes, fenêtre étrange, d’attendre. […]Qui attendrais-je?.E tantas janelas abertas em tantas palavras.

Em quantas manhãs Vermeer doseiou as suas janelas, bebendo a luz necessária para os seus quadros? Como é que se pode sentir tanto ruído por uma simples tecla, através de uma janela? . A porta-janela ou a janela-porta de Matisse?. E uma mulher que espera numa janela de Caspar David Friedrich.

(c)Vermeer, Soldier and a Laughing Girl.

Tom Waits canta : I climb through the window and down the street e sonha-se com as janelas. A janela como encontro com a noite. A janela que erra, que fragmenta pedaços de ruas, de cidades,de rostos, pelos os olhos dos viajantes. As janelas dos aviões, dos comboios, dos autocarros, dos barcos. Como Adriana Calcanhoto canta,pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela,(quem é ela, quem é ela?), eu vejo tudo enquadrado, remoto controle.

As janelas como lugares de solidão, rostos apagados pela idade, pelo meio da manhã e pelo meio da tarde, espreitando para fora, em casas tristes.

Por fim e deixando muitas janelas em aberto, da minha janela vejo um pátio de um colégio. De lá, vêem-se miúdos a correr, a jogar à bola, e a fazerem círculos de mãos dadas.Também vejo mais perto, uma oliveira que, de vez em quando, é visitada por um melro. E por final, vejo, muitas vezes,um gato de olhos verdes que atravessa o muro muito devagar.

da minha antiga de-ci-de-là.

uma viagem

para uma viagem levei uma viagem. e que viagem!!! a do Bloom, o anti-herói, que parte de lisboa numa viagem à índia, em que procura a sabedoria e esquecimento. muita ironia. os deuses não são aqui assunto. muita reflexão.pessimista.melancolia contemporânea que segue um itinerário : razão, sabedoria, esquecimento, felicidade, tédio, dias, os outros, alma, tédio surpreendente, progresso, maldade, erotismo, desejo, espaço, medo, recuar, amor, alegria, futuro, paris, londres, praga, índia, ………tédio.

Não é por acaso que não consegues, por mais que tentes,
atingir em cheio o dia – qualquer que ele seja –
como se faz às baleias com um arpão.
Os dias têm um invólucro espesso,
uma armadura do material mais resistente que existe:
tudo aquilo de que não se sabe onde está o centro
está seguro.
Assim são os nossos dias que bem queríamos aniquilar
com um arpão. Baleia absurda, sem corpo,
o tempo.

Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, página 46.

genius loci ou futuro do turismo

às tantas, alain de botton, na sua religião para ateus, considera que os agentes de viagens focam-se muito na logística e que se esforçam pouco por ajudar os clientes a descobrir destinos que possam trazer um benefício concreto aos seus eus interiores. precisamos de agentes de viagens psicanaliticamente astutos,que consigam analisar com cuidado os nossos anseios e propor-nos destinos que tenham o poder de nos curar – agentes que organizem viagens para nos ligarmos às qualidades que admiramos mas que não estamos a gerar em quantidades suficientes em casa.
ou seja, uma agência de viagens psicoterapêutica alinharia os distúrbios mentais com as partes do planeta mais aptas a aliviá-los.

portugal seria destino para que distúrbios mentais?

acho até que os folhetos dessas viagens deveriam ter registos, fotografias de céus, somente isso.