Janelas

Gosto de janelas, altas e baixas, coloridas e descoloridas, desengonçadas e majestosas, no fundo, gosto das janelas nos seus vários géneros. Gosto da objectualidade do objecto-janela e da subjectividade do subjectivo-janela. De tantos objectos do mundo, tenho uma eleição especial pelas janelas. Na minha vida, não me aconteceu quando o meu pai me pegou no colo e levou-me até a janela e me disse é este o mundo. Não podia bem ser assim. (Muitas luzes pelo caminho e não sei por que fio eu sou levada). Sei que todas às vezes que “errei” para uma nova casa, semprei tomei como primeiro passo conhecer a janela do meu quarto. Deixa-me ver o que vejo daqui, deste canto, e deste lado, agora do esquerdo. As janelas de todos os quartos em que já vivi, lembro-me uma especialmente, que tinha mesmo à minha frente um limoeiro e se ouvia muito bem o vento. Como objecto, que abre para fora e para dentro, de mim mesma também, a janela também pode ser o pensamento. Espera-se pela janela. Será que a esperança tem lugar numa janela?

Da janela, como o melhor enquadramento para ver os crepúsculos, estes corredores que têm um papel colorido. Da janela, como o melhor lugar para receber a luz.Da janela para ver o mundo quieto ou da janela para começar um filme. Quantos? Marguerite Duras começou um por uma janela. Truffaut era obcecado por elas, através delas, comunicando por elas. Hitchcock filmou a melhor aula sobre perspectiva em Janela Indiscreta. Qual é o filme de western em que não se vê um cowboy mirando por uma janela com uma arma em punho? Em quantos filmes de noir vê-se todo o mistério pousado entre um entreolhar numa persiana e uma sombra que passa firme pelas paredes? Como é que se esquecem as janelas de Tarkvoksy, as do Espelho e as da Nostalghia, se elas são autênticos quadros?

A janela como fuga, como entrada de ar e de luz, como ideia de vazio e de nada, como ângulo de visão. Como em Tabacaria, Fernando Pessoa começa Janelas do meu quarto, Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é. As cidades como janelas em brasas com cortinas/ puras, como num lugar de Herberto Hélder. As janelas altas de Larkin: Rather than words comes the thought of high windows:/The sun-comprehending glass,/And beyond it, the deep blue air, that shows /Nothing, and is nowhere, and is endless. Ou como diz Rilke :Tu me proposes, fenêtre étrange, d’attendre. […]Qui attendrais-je?.E tantas janelas abertas em tantas palavras.

Em quantas manhãs Vermeer doseiou as suas janelas, bebendo a luz necessária para os seus quadros? Como é que se pode sentir tanto ruído por uma simples tecla, através de uma janela? . A porta-janela ou a janela-porta de Matisse?. E uma mulher que espera numa janela de Caspar David Friedrich.

(c)Vermeer, Soldier and a Laughing Girl.

Tom Waits canta : I climb through the window and down the street e sonha-se com as janelas. A janela como encontro com a noite. A janela que erra, que fragmenta pedaços de ruas, de cidades,de rostos, pelos os olhos dos viajantes. As janelas dos aviões, dos comboios, dos autocarros, dos barcos. Como Adriana Calcanhoto canta,pela janela do quarto, pela janela do carro, pela tela, pela janela,(quem é ela, quem é ela?), eu vejo tudo enquadrado, remoto controle.

As janelas como lugares de solidão, rostos apagados pela idade, pelo meio da manhã e pelo meio da tarde, espreitando para fora, em casas tristes.

Por fim e deixando muitas janelas em aberto, da minha janela vejo um pátio de um colégio. De lá, vêem-se miúdos a correr, a jogar à bola, e a fazerem círculos de mãos dadas.Também vejo mais perto, uma oliveira que, de vez em quando, é visitada por um melro. E por final, vejo, muitas vezes,um gato de olhos verdes que atravessa o muro muito devagar.

da minha antiga de-ci-de-là.

paisagem

Paisagem

Às vezes, afastando-nos, do cume
dos nosso corações sentíamos
o mar estalar a toda nossa volta, havia
sobre um traço idêntico ao de um vidro fracturado.

Luís Miguel Nava, Rebentação.

Paisagens

São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.

Luís Miguel Nava,Rebentação.

Frequentemente ao olhar uma paisagem tenho a plena consciência de que estou a ver em português e de que, se outra fosse a minha língua, seria igualmente outra a paisagem que eu veria. À pergunta que é comum ouvirmos ” em que línguas pensas? deveria, nesta perspectiva, sobrepor-se esta outra ” em que línguas vês? – Luís Miguel Nava

Como diria o Pessoa é dentro de nós que a paisagem é paisagem.

genius loci ou futuro do turismo

às tantas, alain de botton, na sua religião para ateus, considera que os agentes de viagens focam-se muito na logística e que se esforçam pouco por ajudar os clientes a descobrir destinos que possam trazer um benefício concreto aos seus eus interiores. precisamos de agentes de viagens psicanaliticamente astutos,que consigam analisar com cuidado os nossos anseios e propor-nos destinos que tenham o poder de nos curar – agentes que organizem viagens para nos ligarmos às qualidades que admiramos mas que não estamos a gerar em quantidades suficientes em casa.
ou seja, uma agência de viagens psicoterapêutica alinharia os distúrbios mentais com as partes do planeta mais aptas a aliviá-los.

portugal seria destino para que distúrbios mentais?

acho até que os folhetos dessas viagens deveriam ter registos, fotografias de céus, somente isso.

solvitur ambulando

Paul Theroux, na sua arte da viagem, traz à tona as viagens de vários escritores. Às tantas, conta-nos como Herzog achava que o andar era uma virtude e que podia resolver. Ou seja : Herzog sabendo que a realizadora cinematográfica alemã Lotre Eisner estava a morrer em Paris, tomou estrada e fez um caminho de oitocentos quilómetros até lá a pé. Acreditando assim que ela se manteria viva se ele fosse a pé.Esta jornada é descrita em Vom Gehen im Eis (1980).

Silêncio

por causa do novo romance de Rui Nunes, barro, o ípsilon entrevistou o escritor. vale sempre a pena ouvir esta voz. às tantas diz-nos que uma palavra repetida perde o sentido, chega a uma altura em que é unicamente um som. tal como um país repetido vai perdendo todo o sentido. a viagem é exactamente o contrário, a viagem é a pátria, a grande pátria. porque é na viagem que eu ganho coesão, não é na paragem; na paragem, eu perco. a vida devia ser um durante com muito poucas paragens.

O amante da Pont-Neuf

Quando passei pela Pont-Neuf, não podia deixar de pensar num dos meus filmes : Les Amants du Pont-Neuf (de Leos Carax), numa série de cenas que decorreram naquela ponte, que, a meu ver, tem uma magia qualquer.  À meio da ponte, vejo de outro lado, um homem todo vestido de negro, de costas, num cenário autenticamente à wong kar-wai. Olhei de modo a ver a câmara, já que debaixo das pontes e nas margens do rio, são várias as sessões fotográficas, pensei por onde andaria. Fiquei na dúvida. De qualquer modo, fotografei.

@Lídia Aparício, Paris, Outubro, 2008.

A cidade dos livros

Fnac Forum des Halles,onde não tem uma secção dedicada à genética, mas onde se pode encontrar uma placa dedicada ao anarquismo. Onde encontrei a melhor secção de cinema, não são duas prateleiras, mas dois móveis, e uma mesa inteira; Gilbert Jeune, de Saint Michel,onde se pode comprar uma série de romances e poesia, da gallimard, por 3€. Uma pessoa se perde em cada loja, de quatro pisos;La Hune é a que nos apresenta as novidades em primeira mão, logo na entrada uma mesa grande com as mesmas, Bruno Latour e Michel Serres par a par, um óptimo sinal; L’Ecume des Pages tem uma selecção rigorosa, uma apresentação muito bonita, de nos perder por lá; La Belle Lurette fica na rua onde viveu Samuel Beckett, e tinha na altura uma montra só dedicada à Annemarie Schwarzenbach; Scaramouche é a melhor livraria  de posters de cinema antigos; Librarie Contacts (media librarie), que era a favorita de Truffaut, tem dois pisos, uma dedicada à fotografia e outra de cinema, onde se encontra boas edições; Ciné Reflet, especial para quem estuda cinema; Librarie Ulysse, na lindíssima ilha de St Louis, não podia perder por nada;Shakespeare & Company tinha logo no balcão de entrada um ramo de girassóis; Village Voice é a tal livraria onde iria para ver as novidades do mercado norte-americano e inglês, também andei pela Galignani e W.H.Smith, entre outras, como a Mona Lisait, onde se pode comprar livros de Mark Rothko à bom preço.

Uma livraria na praça de Sorbonne :

Outra em St Germain:

E :

@Lídia Aparício, Paris, Outubro, 2008.

E a livraria de Centre Pompidou??

Fitas com fintas ao descanso

Paris é a cidade do cinema. Quem gosta de cinema, perde-se por lá literalmente. Quis conhecer uma série de sítios por onde filmou Jean Vigo, Godard, Truffaut, Rohmer, mas fiquei com alguns fragmentos. É curioso ver que o café (Le Zimmer) onde Anna Karina teve uma conversa muito interessante com um filósofo (Brice Parain) é agora um  café muito chic e que serve de cenário para muitas sessões fotográficas.

Era sábado à noite, quando passámos por Le Champo. Na altura estavam a  festejar os dez anos de Carlotta. Quem entrava no cinema, decidia-se entre um filme de Antonioni, outro de Visconti, outro de Hitchcock, entre outros. A verdade é que as pessoas entravam. Mas se houvessem dúvidas havia a uns passos adiante, pela rua Champollion, o cinema Reflet Médicis. E só mais uns passos adiante ainda  a filmoteca de Quartier Latin, onde uma das salas foi baptizada por Abbas Kiarostami.Neste cinema são vários os ciclos. A rua rua Champollion é mais cinematográfica de Paris, ao par dos Campos Elíseos,  de outra forma.

Os cinemas de rua são tantos, em Les Halles, em Saint Germain, pelos cantos :

Por todo lado :

Lá dentro :

Fotograma de La Frontière de l’aube de Philippe Garrel.

A entrada do Studio 28, em Montmartre, onde passou pela primeira vez L’Age d’Or.

Da Cinemateca Francesa, nem digo nada. Somente que mesmo em frente ao novo edifício há um jardim fabuloso, onde se pode fechar os olhos e descansar. Antes de chegarmos passámos pelo pavilhão dos desportos, onde se viu a mesma equipa de basquetebol da NBA a fazer um show de truques, a mesma que estava no dia anterior em Notre-Dame. Para os japoneses, por instantes, o interior de Notre-Dame ficou em segundo lugar.

@Lídia Aparício, Paris, Outubro,2008.

A rue Daguerre

A rue Daguerre é um autêntico mercado ao ar livre, de peixes,frutas, e queijos. Uma explosão de cor, onde Sophie Calle se inspirou para criar a sua The Chromatic Diet, acredito eu. Às tantas por cima de um supermercado, vejo este relógio.16h35.

Continuava deliciada a entender o que via nas montras,as miscelâneas de condimentos de alimentos, quando na esquina de uma das paralelas da rue daguerre, vejo um alfarrabista, com dois expositores de livros no passeio da rua. Vou até lá, quando encontro Clarice Lispector. No seu interior, os livros estavam num autêntico caos, mas de forma organizada, ou seja, os livros estavam todos empilhados de forma horizontal. O que se via eram colunas de livros enormes. A grande fatia inclinava-se para a arte.

Mais adiante quase a sair da rua Daguerre descobrimos a loja de Ciné-Tamaris. O que não contava era encontrar Agnès Varda no seu interior. Acabei por fotografar o exterior, mas de uma forma muito apressada. Agora fiquei com muita vontade ver Daguerreotypes. 

@Lídia Aparício, Paris, Outubro,2008.

Agnès Varda já vive há muito tempo na Rue Daguerre, Trotsky e Emile Zola também viveram nesta rua.

Sobre o filme ‘Daguerreotypes”, há uma nota curiosa da realizadora no catalógo da Cinemateca Portuguesa, da Agnès Varda.

Este filme foi feito com urgência porque um ilusionista , Mystas, anunciara a sua vinda ao Café. Era ocasião para reunir os meus vizinhos, os comerciantes que me metiam curiosidade, sobretudo os do bazar  Au Chardon Bleu por onde andava uma velha senhora amnésica de olhos doces. Mas também não me apetecia afastar-me da casa.Estava deliciosamente ocupada mas muito condicionada pelo bebé Mathieu. Ligámos um grosso cabo eléctrico ao quadro da casa.Fizemo-lo sair pela caixa de correio.Não filmei mais longe do que os 85 metros do cabo.

Para a Cristina, não se esquecer onde pode comprar um bom queijo e até pedir conselho à Agnès Varda sobre o mesmo.

Un mois de Lecture des Bâlois

@ Lídia Aparício, Paris, Outubro,2008.

Un mois de Lecture des Bâlois é uma gigantesca instalação de compressão de jornais, de papel. Uma tentativa por parte do escultor César de agarrar o tempo que passa. Uma instalação feita à feição do efémero, do tempo que passa e o que fica : ironicamente, uma obra.  Ela esteve patente no jardim da Fondation de Cartier, aquando da exposição de César Anthologie par Jean Nouvel.

One road is just a road

@Lídia Aparício, Paris, Outubro,2008.

A cidade dos espelhos, do cinzento Sena e do cinzento céu, cantado por Juliette Gréco num filme de Jean Renoir. A cidade do esplendor de Sainte-Chappelle, da magnificência de Notre-Dame, do mistério da igreja de Saint-Germain-des-Prés,onde se pode ver um pequeno desenho de Picasso, e onde esteve Patti Smith no início de outubro para cantar “my blakean year” também.

Sentidos

@Lídia Aparício, Paris,Outubro,2008.

Paris, escreve Benjamin,”ensinou-me a arte de perder-me”. O flâneur é uma criação de Paris. A meu ver, não se consegue andar pela cidade de mapa.Paris é mesmo para se perder. Não vejo portas entre Les Halles e Tuileries, como St Germain e Quartier Latin.