O grito

Não valia a pena esperar, ninguém viria
que nos segurasse a cabeça e nos pegasse nas mãos,
estávamos sós e essa solidão éramos nós;

e era indiferente sabê-lo ou não,
ou gritar (ou acreditar), porque ninguém ouvia:
o grito era a própria indiferença.

Presente, apenas presente;
a memória, presente,
a esperança, presente.

E, no entanto, houvera um tempo
em que tínhamos sido talvez felizes,
quando não nos dizia respeito a felicidade,

e em que tínhamos estado perto
de alguma coisa maior que nós
ou do nosso exacto tamanho.

Como um animal devorando-se
por dentro a si mesmo,
consumira-se, porém,

o pouco que nos pertencera, os dias e as noites,
a certeza e o deslumbramento, a cerejeira e a
palavra “cerejeira” ainda em carne na jovem boca.

Nenhuma beleza e nenhuma verdade que nos salvasse,
nenhuma renúncia que nos prendesse
ou nos libertasse, nenhuma compaixão que

nos devolvesse o ser
ou o mesmo,
ou fosse a morada de algo inumano como um coração.

Nenhuns passos ecoavam no grande quarto interior,
nenhumas pálpebras se abriam,
como poderíamos não nos ter perdido?

Entre 10 elevado a mais infinito
e 10 elevado a menos infinito,
uma indistinta presença impalpável na indiferença azul,

sós,
sem ninguém à escuta,
nem a nossa própria voz.

Manuel António Pina, Os Livros, Assírio & Alvim.

resgatado daqui.

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isto é o meu corpo

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar.

José Tolentino Mendonça, Estação Central, Assírio & Alvim, 2012

As coisas

Há em todas as coisas uma mais-que-coisa
fitando-nos como se dissesse: “Sou eu”,
algo que já lá não está ou se perdeu
antes da coisa, e essa perda é que é a coisa.

Em certas tardes altas, absolutas,
quando o mundo por fim nos recebe
como se também nós fossemos mundo,
a nossa própria ausência é uma coisa.

Então acorda a casa e os livros imaginam-nos
do tamanho da sua solidão.
Também nós tivemos um nome
mas, se alguma vez o ouvimos, não o reconhecemos.

Manuel António Pina, Como se desenha uma casa, Assírio & Alvim, 2011.

paisagem

Paisagem

Às vezes, afastando-nos, do cume
dos nosso corações sentíamos
o mar estalar a toda nossa volta, havia
sobre um traço idêntico ao de um vidro fracturado.

Luís Miguel Nava, Rebentação.

Paisagens

São outras as paisagens quando alguém
as vê pelas janelas do seu próprio coração ou quando
com esse coração
a própria estrada está comprometida.

Luís Miguel Nava,Rebentação.

Frequentemente ao olhar uma paisagem tenho a plena consciência de que estou a ver em português e de que, se outra fosse a minha língua, seria igualmente outra a paisagem que eu veria. À pergunta que é comum ouvirmos ” em que línguas pensas? deveria, nesta perspectiva, sobrepor-se esta outra ” em que línguas vês? – Luís Miguel Nava

Como diria o Pessoa é dentro de nós que a paisagem é paisagem.

Ezequiel (Ez 12,1-20)

Arruma as tuas alegrias
E faz as malas como se fosses emigrante

Leva contigo todas as coisas
E parte de dia como se fosses emigrante
Para que possas levar também a luz

Abre a cal.O flanco do muro
Porque vais como emigrante e precisas
De regressar

Na parede faz uma abertura
Para que os que passam vejam o teu rosto
E não digam: vai beber ao poço
Vai visitar um parente no estrangeiro
Ninguém chora por razões assim

Parte de tarde, dobrando a luz
Cobrindo o rosto de cinza e de sombra
Porque és um povo que abandona a tua casa
E nos teus passos eu arraso o teu país

Daniel Faria, homens que são com lugares mal situados, fundação manuel leão, 2002, pág 52.

a faca não corta o fogo

sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sôpro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria

herberto helder,a faca não corta o fogo, assírio & alvim, 2008.

A Tabacaria da Casa da Música

© Sara Huete, “Frutos del bosque”.

O Metro do Porto lembrou-se de colar cartazes pelas estações (não tenho a certeza se serão em todas) sugestivos, muito figurativos, ou seja, dentro do âmbito das “viagens literárias” , uma campanha com o objectivo de incentivar a leitura junto dos utentes da rede. Ainda pensei que algum pensamento de Oscar Wilde surgisse afixado em alguma carruagem do metro, mas não. Temos imagens da parte de fora, animais de quinta, etcs.

Hoje e amanhã decorrerá um “porto de poesia”, ou seja, sessões de leitura de poesia . Eugénio de Andrade , Florbela Espanca, e.

Amanhã quando estiver no cais da casa da música à espera do metro, no seu minuto 1 e a espreitar para o ecrã das partidas e fecho dos aviões, espero ouvir :

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.