Another Year

Vi hoje Another Year, de Mike Leigh e gostei muito. É um filme,mas podia não ser. É impressionante como de uma forma tão simples, parecendo nada, enche a tela com o tudo, os pequenos nadas. Um casal “perfeito” que acolhe nas viragens das estações amigos com os seus problemas. Parece ser tão simples filmar o complexo do fundo de uma relação ou da ausência da mesma. Só realizadores com o toque de mestre chegam a este ponto.

Em Maio

Fotogramas de :
Um Verão de Amor, de Ingmar Bergman;
Luzes no Crepúsculo, de Aki Kaurismäki;
Center Stage, de Stanley Kwan;
My Blueberry Nights,de Wong Kar-Wai;
Gruppo di Famiglia in un Interno, de Visconti;
Uma lição de Amor, de Ingmar Bergman;
Last life in Universe, de Pen-Ek Ratanaruang;
Marseille, de Angela Schanelec.

Em Abril

 

Fotogramas : O Mundo de Jia Zhang-Ke, Quando uma mulher sobe as escadas de Mikio Naruse, Il Grido, de Antonioni, Les Anges du Péché, de Robert Bresson, L’Amour à Mort, de Alain Resnais, Mèlo, de Alain Resnais, Coeurs, de Alain Resnais, L´Ivresse du Pouvoir, de Claude Chabrol, O tempo do lobo, de Michael Haneke, Les Chansons d’Amour, de Christophe Honoré, Un soir après la guerre , de Rithy Panh, El Espíritu de la colmena, de Victor Erice.

Para conhecer as obsessões de Antonioni, as suas marcas, Il Grido é um bom exemplo. Neste filme aprofunda-se, mais no campo da imagem, sempre mais a imagem que a palavra, a solidão, o seu tema eterno. Toda a errância de um simples operário, que não sabe da sua identidade, que volta no final ao topo, do lugar onde foi feliz. Antonioni trabalha aqui :a imagem como fosse a transparência do pensamento que não é dito.Também faz aqui um trabalho de personagens, tenta colocá-las no melhor enquadramento, na melhor forma, no melhor campo, na melhor linha.

Mais do que o tema do amor, da morte, do suicídio, L’amour à mort, de Alain Resnais transcende os próprios temas, corporiza a forma, materializando a música como personagem.

Quando uma mulher sobe as escadas centra-se na vida de uma mulher viúva, no Japão do pós-guerra, que luta entre ficar ligada aos costumes tradicionais ou ceder às influências modernas. Keiko quer casar e abrir o seu bar, mas os ventos são fortes. O filme pauta-se por toda uma luta, pela sua preserverança. Apesar dos ventos serem contrários aos seus desejos, Keiko continua a sorrir quando entra no bar que trabalha.

L´Ivresse du Pouvoir, de Claude Chabrol tem um tema interessante. Uma mulher juíza que quer caçar os grandes, os mafiosos, os empresários que se metem nas artimanhas mais escuras. Uma juíza muito determinada em levar tudo até ao último ponto. No entanto,…parece que o cubo mágico não fica todo com as mesmas cores.

Les Anges du péché , de Robert Bresson, há ma cena estupenda, quando Thérèse mata o amante. Aguarda que ele abra a porta, e só vemos uma sombra ao seu lado. Mata uma sombra é o que vemos.

Em Março

Fotogramas de Into the Wild, de Sean Penn, No Country for old men, de Ethan e Joel Coen, Eastern Promises de David Cronenberg, Estate Violenta, de Valerio Zurlini, Roma, Cittá Aperta, de Roberto Rossellini, Run Lola Run, de Tom Tykwer, La Ragazza con la Valigia, de Valerio Zurlini,Identificazione Di una Donna, de Antonioni, As Invasões Bárbaras, de Deny Arcands, Wonder Boys, de Curtis Hanson,The Conversation de Francis Ford Coppola, Rosemary’s Baby, de Polanski, My Blueberry Nights de Wong Kar-Wai e Nachmittag de Angela Schanelec.

Apesar de ser  muito violento e ter um ritmo demasiado certo, ou melhor, um compasso certíssimo, No Country For Old Men tem pormenores interessantes e tem uma personagem poderosa, o xerife que carrega consigo um passado e todo o desencanto.

Em Eastern Promises, Cronenberg volta ao seu tema caro, a violência, até ao mais rente dos ossos, até à bainha da alma. Um motorista de uma família mafiosa que quer ser “rei” e para tal vai deslizando um dominó, até às primeiras estrelas e últimas. O que mais me impressionou foi o local em que corpos eram deixados, sujo, apertado, escondido, um beco sem saída.

Estate Violenta, de Valerio Zurlini é um filme memorável. Aqui o pessimismo está abraçado com o medo das cinzas de um romance. A primeira cena de alegria, de tango e massa, e depois mais adiante uma  cena de dança com uma troca forte de olhares, entre os dois amantes, e também a chama do circo, é o fogo que arde e depois as cinzas, a violência antes do último comboio.

Ainda continuo a pensar como é que Rossellini coloca uma cena cómica antes de uma cena tão dramática, como aquele riso daquela mulher face ao resistente e depois a queda.

La Ragazza con la Valigia, de Valerio Zurlin é outro excelente filme. Depois de o ter visto, fiquei a pensar nele e ainda não consegui ter as melhores palavras. Nem sei se vou ter.

Em Identificazione Di una Donna, há um cineasta que procura um rosto para um filme e, na vida, busca a sua mulher ideal. Uma mulher com a qual pode comunicar, como ele gosta de comunicar com a natureza. Antonioni tem uma queda para as cores e aqui se vê na troca de vermelho e azul, quer da mulher ou do homem, como fossem as marcas dos sentimentos do momento. Nunca se vê os dois amantes vestidos da mesma cor.

Em The Conversation de Francis Ford Coppola, há um homem que depois de muitos anos a fazer o que faz, começa a ver o outro lado, o da responsabilidade e o da moral, o que é certo e o errado. Não há uma obsessão por uma imagem como Blow Up, mas por sons ,por uma conversa. A cena final é o final mais desolador que poderia haver. O som do saxofone numa casa destruída e cortada com qualquer outro som (ou não).

My Blueberry Nights de Wong Kar-Wai não é decepcionante, mas depois de atravessar todo o filme, encontro do outro lado da rua, o mesmo Wong Kar-Wai, a utilizar a mesma bagagem. Gostava que Kar-Wai surpreendesse com outro filme sublime, mas aqui está longe. Agrada-me ver um road-movie, porque há sempre estradas, e àqueles céus são de “morrer” naquelas estradas. Uma mulher que sai da sua cidade, para se afastar de um desgosto amoroso e para se encontrar com ela mesma, cruza com outras aventuras, com outras histórias e volta. Tem à sua espera o homem da tarte de cereja e das batatas fritas com porco, o homem que tem como a câmara de vigilância do seu restaurante, como o seu diário. A banda sonora é estupenda, começando com Cat Power, com o seu The Greatest, passando pelo Try a little Tenderness, de Otis Redding, e pelo Harvest Moon de Neil Young.

Nachmittag de Angela Schanelec é um óptimo filme, que adapta a Gaivota. Fiquei surpresa com a qualidade do mesmo, a qualidade fotográfica e a clareza sonora. Fez-me lembrar Bergman, em especial na cena dos jovens perto do rio, mas isso não interessa nada. É um filme que vou rever com toda a certeza.

Em Fevereiro

Fotogramas : The Tarnished Angels, de Douglas Sirk; A Time to Love and a Time do Die, de Douglas Sirk; Le Petit Soldat, de Godard;Imitation Of Life, de Douglas Sirk; Made in Usa, de Godard; Blade Runner, de Ridley Scott; Ratatui, de Brad Bird; Une Belle Fille comme Moi, de Truffaut; In the Valley of Elah, de Paul Haggis; Feast of Love, de Robert Benton e There Will be Blood, de Paul Thomas Anderson.