Da verdade

Na cidade não nevava, nem vim de comboio, nem havia pôr-de-sol. Há sempre uma fuga, o mar mais à frente. Nadar dá força, o mar tem essa força maior. É  tão bom pensar que houve alguém que passou o rio, saltou a margem, não fugiu, procurou a sua própria essência, não se escondeu,  quis a sua liberdade autêntica, a verdade, para além de tudo. Agarrar assim a vida dentro do coração da natureza e assim morrer é muito para a simplicidade bela de um filme, como Into the Wild, de Sean Penn. Mas também é o que chega, porque o resto é feito por quem viu. Vim caminhando, a pensar. Há muito que tenho o Walden ao pé de mim. Guaranteed.

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Um périplo em b.d

Agarrei na sexta-feira e dei sentido à minha errância. Atravessei a cidade de uma ponta à outra, ou melhor, na circunferência do seu coração. Começo por qualquer sítio, a b.d que desenho dentro do pensamento, guarda na retina o que fotografo.Às tantas, estou na titulada rua que estaciona arte, a rua que neste sentido segue agora o dos tremoços.

Desço e cruzo-me com o cheiro que trago na memória de uma árvore, ao fundo da rua. Mais um bocadito, e não sei que horas são, o relógio ficou na gaveta, nem faço a mínima quantos minutos são, até chegar ao palácio e os tais famosos ninhos lá estão de volta. Tomo outro caminho, deixo três livros na biblioteca e giro até à saída. Dou-me conta que há outra festa no palácio e esta não é feita de papel. Tem outra cor.

Por mais que quisesse permanecer nos jardins, fico o tempo que sobra por uma unha, faço as diferenças pelo o olhar, o puzzle dos verdes. Como é que era mesmo essa árvore no inverno, ou melhor, há um mês atrás?Por mais que quisesse, as cadeiras vazias iam ficar lá presas à espera.

Sai do palácio e desço mais ao coração da cidade. Caos de tubos, confusão de pó, escavadoras de rastos, um cenário de obras por todo lado que se caminhe. Nem os espelhos enganam.

Pergunto-me:O que se passa nesta cidade? As respostas estão descosturadas.

No meio de tanto pó, Jesus Cristo baixou à baixa. Fugindo à redudância, chegou a super estrela. No meio do caos só poderia nascer uma estrela,…. As portas já estão abertas.

Não estou a ver muito bem, é mesmo a cruz de Cristo ou é uma janela do milénio?

Também no seu alto, há uma águia que deixou de voar.Uma águia que nos apresenta uma noite na terra e promete-nos a seguir: tudo o que o rio levou.

Os meus passos lá continuam, nesta cidade com um envelope sujo e sem destino certo. O meu olhar deixa o seu selo.

(fotos de Lídia Aparício).

Fuga Madrilena

(daqui)

Madrid espera-me. Daqui a nada estou no comboio a ver Madrid amanhecer.Kilómetro cero. Ainda não acredito que vou ver a Guernica. Picasso. Caminhar, caminhar, caminhar.Ler um poema do Ruy Belo na Plaza Mayor. Tomar uma copas  por la noche en el barrio de las letras entre las calles de Lope de Vega y Cervantes. El paseo en el Retiro al atardecer y não querer voltar cedo.