O que não escrevi

Fotogramas de  The Dangerous Thread of Things, de Michelangelo Antonioni.

O que nos falta é uma fenomenologia metódica, histórica e psicologicamente pertinente, da interacção entre a sexualidade e as palavras, entre a libido e a enunciação, íntima ou vocalizada. Não temos uma poética ou uma retórica sistemática do eros, do modo como fazer amor é uma maneira de fazer palavras e sintaxe. Nenhum Aristóteles, nenhum Saussure enfrentou esse desafio axial. Mais concretamente, não temos, tanto quanto sei, qualquer estudo ou introdução resumida sequer sobre a maneira como se faz a experiência do sexo, sobre a maneira como se faz amor em línguas diferentes e diferentes condições da língua (étnicas, económicas, sociais, locais). Em si própria, a condição poliglota, nos seus vários níveis de exercício imediato e de competência, não é muito rara. É um traço de numerosas comunidades humanas, como vemos nos casos da Suécia, da Suiça ou da Malásia. São muitos os homens e mulheres que dispõem de mais do que uma língua “natal”, desde a sua mais tenra infância.Todavia, dir-se-ia que não temos qualquer descrição consistente, qualquer registo introspectivo ou relativo à ordem da socialização daquilo que não pode deixar de ser a sua existência erótica metamórfica. Em que difere fazer amor em basco ou em russo de fazer amor em flamengo ou coreano?

George Steiner, Os livros que não escrevi, Gradiva, 2008, pág 107 e 108.

O capítulo As Línguas de Eros é uma surpresa, no tanto que Steiner já escreveu sobre literatura e trânsitos de artes. Autênticos mosaicos à Mondrian.No entanto, o que é que Steiner escreveu sobre cinema? Gostava de ver o seu olhar urgente também sob as telas.Por curiosidade.

4 thoughts on “O que não escrevi

  1. olá , enquanto não há cinemateca aqui na “aldeia” a minha demanda foi a de pedir a Lisboetas para assinarem a petição eh ehe he eeh

    mas que existem pessoas que sabem mto bem a «distância que vai do projector à tela» isso há – e tu és uma delas ( um dia que crie favoritos ) tu serás um deles e aí vais-me responder ehheheheheh – esta é uma gargalhada sonora diga-se .

  2. olá
    mereces leitores com outra sagacidade ( mas partindo do princípio ) que isso do “capitão”é comigo : assinei a petição sim senhora ! e porque sim ,isso da memória colectiva ser exclusivo da “capital” confunde-me um pouco confesso

    P.S e devo acrescentar que me revejo isso sim no papel de “grumete” no lugar do “ninho do corvo” nas baleeiras e noutros … eheheheh – manias !

  3. olá Ventura -:) referia me mesmo ao Bénard da Costa.

    espero ver realmente essa sala, essa cinemateca e claro as pessoas do Porto a ver os filmes e espero os preços da cinemateca de lisboa espero espero
    mas em relação a isso as minhas expectativas já foram no tapete do aladino

    um bom fim-de-semana para ti🙂

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