Um falcão no punho

XIV

 eu via nela tanta beleza

que não resisti à vontade súbita de brincar com ela.
Dei a Dickinson uma carta e, na volta do correio, recebi notícias sobre o absurdo do tempo, sobre pirilampos e outros still lives.

Dei a Rilke o meu cavalo, e ele ofereceu-me uma matilha de cães adestrados para o combate, o que, no meu caso, era absolutamente um luxo superior às minhas posses.

Dei a Rimbaud a parte mais recôndita desta casa e, no escuro mais espesso, não resistiu a mostrar-me a sua nudez musical.

Dei a Musil uma balança que não pende mais para um lado do que para outro e, na sua hesitação, esperou por mim.

Dei a Hölderlin, o velho, meu irmão, uma bilha e a minha tristeza quebrou-se.

Dei a Aossê uma família de aves e ele iluminou-me a fisionomia do rosto.

Entreguei ao meu ambo o estudo da terra e ele criou uma atmosfera propícia à minha alegria.

Dei à rapariguinha que me atacava de surpresa, com pequenas forças, um rebento que nasceu ao pé da tília do jardim.

E não tem medo da morte? Tenho, ao raiar do dia.
Nasceu, então, o primeiro riso entre nós.

E ela disse-me que eu seria natural em todas as coisas.
Natural? Quereria ela dizer “espontânea”? Não, queria dizer “naturalmente”.
E, de repente, eu soube naturalmente que haveria entre nós um combate mortal,

vida contra vida
porque todos somos incompletos a certas horas do dia.

Maria Gabriela Llansol, Onde vais, drama-poesia?, Relógio d’ Água, pág 79 e 80.

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