Sansho Dayu

Rondam os 80 filmes que Mizoguchi realizou. É certo que não vou ver todos os seus filmes, mas uma coisa é certa todo o filme que venha a ver dele sei que ficará sempre um plano na minha memória (para não dizer vários).  Agora que passou um dia depois que visionei  O Intendente Sansho e não consigo dizer muita coisa que possa chegar perto da beleza tremenda, da tristeza doce, da resignação certa deste filme, não consigo mesmo. O tema é a misericórdia, há uma deusa budista, a deusa Kannah, o tesouro de uma família, de um pai que parte do seu país para o exílio. E a sua família restante –  mãe, filho e filha -tentam alcançar o seu caminho. No entanto, há um elemento forte , a  “água”, que pulsiona a acção (quando tentam atravessar um rio, dá-se a separação da mãe dos filhos) ; que embeleza o suícidio de Anju no lago; que fecha na ilha com a mãe cantando aquela canção povoada de tanta tristeza e saudade.

A primeira cena que me deslumbrou : A travessia da mãe e filhos por um campo cheio de flores brancas. Quando o tom negro domina é impressionante essa brancura. Este talvez fosse o último plano de felicidade.

Meu deslumbramento é maior quando vejo a cena do suícidio de Anju no lago. É de uma tremenda beleza a luz que surge, aquando da entrada do seu corpo lentamente, somente a sua sombra no lago e os ramos negros das árvores. Que luz! Nunca vi tal. E depois a espiral, as espirais.

6 thoughts on “Sansho Dayu

  1. Não, infelizmente não. Uma amiga (http://last-tapes.blogspot.com/ – imperdível! ) é que passou para a minha mão este filme. Há pouco tempo saiu um pack dedicado ao Mizoguchi : A Espada de Bijomaru e Cinco Mulheres em Torno de Utamaro. Os únicos que conheço editados em portugal.

    Vi há dias na fnac brasileira que está em destaque um colecção de filmes dedicada ao wim wenders. São boas edições?

  2. Lídia … Quanto aos Wenders, as edições estão ótimas. A EuropaFilmes, que também está lançando quase todos os Rhomer, acertou no material que colocou no mercado. Se você lembrar dos últimos posts no Sela de Prata, os que, especificamente, são dedicados a Wim Wenders, são fruto destas edições que, possivelmente, estão a venda pela Fnac Brasileira. Comprei todos, e todos estão no formato correto (aspect ratio), inclusive Paris, Texas que eu já tinha, mas quero ver como ficou na nova edição da EuropaFilmes.

  3. Este filme é lindíssimo… Embora prefira “Ugetsu monogatari” e “Chikamatsu monogatari”. Gostei muito desta crónica. Também tenho muita dificuldade em exprimir o que sinto em frente de filmes do Mizoguchi e ainda mais do Ozu. São obras que me tocam profundamente…

  4. Nuno, também gosto muito dos filmes, muito mesmo, do que falas. Não saberia indicar o meu favorito. Ugetsu já foi o meu favorito até ver Chikamatsu Monogatari.

    Estive no seu site e gostei muito do que vi. Tenho que voltar lá mais vezes.🙂

  5. Infelizmente não é o último plano da felicidade. Enquanto atravessa a deslumbrante beleza de que a imagem fixa acima dá uma pálida ideia, Kinuyo Tanaka diz algo como (se a memória não me atraiçoa): tudo aqui é tão feio.
    O epitáfio de Kenji Mizoguchi declara-o como o maior realizador do mundo. Juro por Hermes que é verdade…

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