Um périplo em b.d

Agarrei na sexta-feira e dei sentido à minha errância. Atravessei a cidade de uma ponta à outra, ou melhor, na circunferência do seu coração. Começo por qualquer sítio, a b.d que desenho dentro do pensamento, guarda na retina o que fotografo.Às tantas, estou na titulada rua que estaciona arte, a rua que neste sentido segue agora o dos tremoços.

Desço e cruzo-me com o cheiro que trago na memória de uma árvore, ao fundo da rua. Mais um bocadito, e não sei que horas são, o relógio ficou na gaveta, nem faço a mínima quantos minutos são, até chegar ao palácio e os tais famosos ninhos lá estão de volta. Tomo outro caminho, deixo três livros na biblioteca e giro até à saída. Dou-me conta que há outra festa no palácio e esta não é feita de papel. Tem outra cor.

Por mais que quisesse permanecer nos jardins, fico o tempo que sobra por uma unha, faço as diferenças pelo o olhar, o puzzle dos verdes. Como é que era mesmo essa árvore no inverno, ou melhor, há um mês atrás?Por mais que quisesse, as cadeiras vazias iam ficar lá presas à espera.

Sai do palácio e desço mais ao coração da cidade. Caos de tubos, confusão de pó, escavadoras de rastos, um cenário de obras por todo lado que se caminhe. Nem os espelhos enganam.

Pergunto-me:O que se passa nesta cidade? As respostas estão descosturadas.

No meio de tanto pó, Jesus Cristo baixou à baixa. Fugindo à redudância, chegou a super estrela. No meio do caos só poderia nascer uma estrela,…. As portas já estão abertas.

Não estou a ver muito bem, é mesmo a cruz de Cristo ou é uma janela do milénio?

Também no seu alto, há uma águia que deixou de voar.Uma águia que nos apresenta uma noite na terra e promete-nos a seguir: tudo o que o rio levou.

Os meus passos lá continuam, nesta cidade com um envelope sujo e sem destino certo. O meu olhar deixa o seu selo.

(fotos de Lídia Aparício).

2 thoughts on “Um périplo em b.d

  1. A ausência de pessoas! Talvez porque a errância seja , por excelência, o espaço dos solitários! Quando elas aparecem (aliás, ela, um homem caminha na quarta foto) são através de uma vidraça de janela, uma redoma, barreira, que impede. Os errantes são mesmo solitários, Lídia se alimenta de imagens de solidão?! (Risos).

  2. De um antonionioni para uma antonioniona é verdade. O que me acontece por fotografar menos pessoas é o respeito, não gosto de fotografar nem que sejam meros passeantes, apesar de achar que a maior riqueza (para a passagem do tempo) é ter essas pessoas lá tb.

    Não me alimento de imagens de solidão, mas tenho a tendência de fotografar mais o vazio, o amplo, o solitário. Pode ser muito contemporâneo ou espiritual, dependes.

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