Perdidos e Achados

“A Lídia veio do Porto a Lisboa, de comboio, para me visitar. Quando se preparava para pegar na sua mala e sair, na estação do Oriente, reparou primeiro que ela não estava exactamente no lugar onde a deixara, na bagageira à entrada da carruagem. Depois notou que aquela mala era igual à sua, mas não era a sua. […]
Naquela noite, a mulher não resistiu à aventura, retirou da mala a camisa de dormir de seda azul-petróleo e deitou-se com ela.
No dia seguinte experimentou o vestido bordeaux com bolinhas cor-de rosa à Marilyn Monroe. Talvez lhe ficasse bem. Talvez lhe agradasse ter perdido a sua própria roupa. Talvez tivesse cedido à vertigem de viver sem história,livre. Talvez comece a entrar aleatoriamente em comboios, para sair com a mala de outra pessoa. Talvez a mulher se sentisse perdida. Por isso decidiu não ir aos Perdidos e Achados.”

Paulo Moura, na sua coluna “do outro mundo”, n’O Público, dia 3 de Setembro de 2006.

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