Apontamentos # 13


Don't Come Knocking, Wim Wenders.

Ontem tive a sorte de ter ligado a tv, no momento em que começava os Insolentes, Les Mistons, de Truffaut. Uma curta-metragem de 17 minutos, que o realizador francês realizou, dois anos antes de Les 400 coups. Tem como base o romance homónimo de Maurice Pons. Cinco insolentes que espiam e perseguem um casal de namorados. Um prefácio do que viria muito logo a seguir.

Dizem que é um dia de primavera, sinto que seja um dia de verão, apesar de pensar que é inverno. Fará algum sentido isto? Num país, em que se dá conta das mudanças das estações mais claramente, chego a estes pensamentos de pensar que pode ser diferente o que não é. Num dia de folga, ouvir os pássaros no jardim do palácio do cristal, pode ser um momento de ver que é primavera, apesar de se pensar que é inverno. Frases com apesar de deviam ser proibidas, no caso de haver a palavra primavera antes.

Continuando com outro pensamento,depois de vários meses sem ir a biblioteca, chego a conclusão, que já foi mais do que concluída há muito tempo, que ir a biblioteca num dia do mês de março e num dia do mês de março da ano passado, bate quase a mesma coisa. Ou seja, a biblioteca que visito mais parece um palácio, no ponto em que a mobília continua a mesma, as visitas, os livros,que podem surgir por lá, são visitas de festas que desconheço. Enquanto que as livrarias são bons hotéis, em que os livros passam lá bem uma noite, as bibliotecas são bons palácios, ou melhor, um lar com papel de parede igual aos dos palácios. Procurar novidades numa biblioteca é tão patético que nem tenho como para completar.

Voltando a outro pensamento, errar, nesta cidade, para mim, já não é errar. É tomar outro caminho diferente. É uma cidade fechada, surpresa de ver uma àrvore ao fim da rua no seu esplendor de primavera, sonhar que o mar pode estar no virar do esquina, e a maresia está ali já, no pensamento.

Há sempre modo de fugir para uma sala de cinema. Estou presa na última cena, de A History of Violence. Por instantes, dentro do filme, pensei noutro silêncio, na mesa de jantar, de uma cena de O Regresso, Andrei Zviaguintsev. Não sei o que possa a ver uma coisa com a outra. Um cine-poema com todos os silêncios verdadeiramente silêncio. Por fazer.

que ferais-je sans ce monde (what would I do without this world)

what would I do without this world faceless incurious
where to be lasts but an instant where every instant
spills in the void the ignorance of having been
without this wave where in the end
body and shadow together are engulfed
what would I do without this silence where the murmurs die
the pantings the frenzies towards succour towards love
without this sky that soars
above its ballast dust

what would I do what I did yesterday and the day before
peering out of my deadlight looking for another
wandering like me eddying far from all the living
in a convulsive space
among the voices voiceless
that throng my hiddenness

Samuel Beckett

3 thoughts on “Apontamentos # 13

  1. Essa curta vem no extras do DVD dos 400 Golpes🙂

    Quanto à mudança das estações, Lídia, no ano passado, o Museu de História Natural de MAdrid tinha, por esta altura, uma expo temporária sobre o mundo mediterrânico, fauna, flora, agricultura, produções e estações. Dizia-se aí que a diferenciação certinha entre as quatro estações é uma das características do Mediterrâneo, incluindo, além das áreas geográficas óbvias, um segmento-faixa da Califórnia, um segmento-faixa do Chile, outro da Argentina e também um naco no sudoeste da Austrália. Fiquei uns dez minutos em frente a essa informação, a reler, a tentar conceber que pudesse ser uma coisa “bizarra”, já que o tom da exposição era o de dar a conhecer coisas mediterrânicas a quem não as conhece. (O vinho, no resto do mundo, também é aparentemente um luxo. )

    Fogo, post tão inspirado :))) E um grande fim.

  2. Ah, não sabia disso, Ana. É que não tenho os dvds do Truffaut, excepto um filme, tudo o resto dele está em vhs. Por isso, escapa-me o extra.🙂

    Mujer, não me fales de Madrid, que fico logo com vontade de pegar o comboio e sentar-me naquelas esplanadas, tás a ver?, a ler os poemas do García Lorca. O que achas? um bom final de dia, não achas? E depois, já que falas em vinho, logo que fosse acompanhado com uma paella, excelente, ehhe. Falando em paella, haverá blogues com receitas de paellas? Como é que não sei tal coisa?? oh gods, que falha a minha.
    Muito interessante o que dizes, também fiquei a pensar e mais : falei na mudança das estações a pensar nos países em que realmente não se nota tão claramente essa mudança. Ainda bem que assim seja, cá em Portugal, já que Camões escreveu uns dos poemas que mais gosto graças às mudanças.

    Que inspirado? Inspirado são os teus posts, os teus textos, isso sim.
    Eu aqui estou com as minhas doudices.

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