Apontamentos # 12

Lights in the Dusk, Aki Kaurismäki.

Às tantas, numa das suas cartas Makar Dévuchkin, fala de literatura, deixando por instantes todos os pormenores comezinhos de uma vida comezinha. Gente Pobre, uma troca de cartas entre um funcionárido de meia-idade e da sua vizinha costureira. O primeiro romance de Dostoiévski, escrito aos vinte e cinco anos, o início do caminho, com o género epistolar.

A literatura é uma coisa boa, muito boa, Várenka, fiquei a sabê-lo anteontem, por eles. Uma coisa profunda! Uma coisa que reforça os corações humanos, uma coisa edificante…e muito mais que vem escrito lá, no livro deles. Muito bem escrito! A literatura é um quadro, ou seja, um certo sentido um quadro e um espelho; a expressão da paixão, a crítica muito fina, a lição didáctica e o documento. (Gente Pobre, tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra, Asa, Março 2006,  pág 60)

Estou mergulhada nestas cartas. Não há costura que se veja. Sublinho e volto a sublinhar: Escreva-me se quiser; e escreva-me tudo com muito pormenor. […] Quero que me conte como vive, em pormenor. […] Peço-lhe só uma coisa : responda-me,[…], com o máximo de pormenores.

Já que se fala em cartas, alegra-me saber que,no próximo mês, estará à vendas as cartas de Sophia de Mello Breyner e Jorge Sena(desconhecidas do público há muito), pela mão da nova editora Guerra e Paz. Brilhante ideia minha de resgatar o jornal de uma mesa de um café e ficar a saber que, para o meu espanto,em Abril temos a  edição de:Numa noite escura saí da minha casa silenciosa, de Peter Handke (Casa das Letras). Também, no próximo mês, já temos as "Loucuras de Brooklyn" (Asa), de Paul Auster. A Relógio d' Água (uma das editoras, ao par da Assírio, que me faz muitos estragos na carteira) apresenta-nos O livro de Paisagens, de Maria Andersen de Sousa (estou curiosa para ler os seus novos poemas), A Invenção de Modernidade, de Charles Baudelaire e Roteiro de Inconfidência, de Cecilia Meireles.

Dizer que a cidade do Porto é uma cidade triste é dizer muito pouco. É ficar muito longe do cerne da profunidade do significado "triste". Esta cidade tem uma casaco chamado tristeza, e não importa que a estação seja verão ou inverno, a moda aqui não vira. É sempre nesta mesma onda.

O cineasta, do brilhante Homem sem Passado, Aki Kaurismäki, fala-nos aqui do seu novo filme, que estará em Cannes, Lights in the Dusk. E também fala muito de Portugal, do Porto. 

"Portugal was such an innocent country that I did not want to advertise it to tourists.""In the late 1990s, in the space of about five years, Portugal went through the same sort of development process that Finland experienced between the early 1960s and the ‘90s. I tried to stand in the middle of the road, waving my arms and saying: ‘Hey, I've seen this before, don't do it'. But nobody listened."

Graças a última edição de Vidro Azul, fui ao encontro do álbum Murmurs, de Caroline,belo, belo, belo. E fiquei rendida à voz de  P. G. Six, com Old Man On The Mountain.

Eis de volta: os dizeres, as ficções, o arco-íris das palavras do Quixote em Belo Horizonte.

Spring is like a perhaps hand
(which comes carefully
out of Nowhere)arranging
a window,into which people look(while
people stare
arranging and changing placing
carefully there a strange
thing and a known thing here)and

changing everything carefully

spring is like a perhaps
Hand in a window
(carefully to
and fro moving New and
Old things,while
people stare carefully
moving a perhaps
fraction of flower here placing
an inch of air there)and

without breaking anything.

E.E.Cummings

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