Memórias de um pesadelo

 

Nunca vi o cinema de Bom Sucesso como o vi ontem. Para além de ser segunda-feira, não contava com uma fila por volta de trinta pessoas à minha frente e mais do que trinta pessoas atrás de mim. Bom sucesso pode se dizer que foi realmente ontem. Estive a bater bolas, até ver onde ela parava quanto à razão de tal enchente, e ela não ficou na rede, passou para outro lado da sala, lá estava ela com Woody Allen. Já nada havia a esconder. Voltando, há muito que esperava pelo filme de Michael Haneke, mais precisamente antes de festival de Cannes do ano passado. Apesar de esperar, não tinha expectativas. Haneke é um dos poucos realizadores, do nosso tempo, que não quero perder de vista.E assim continuará a ser.Depois ter visto Caché uma série de palavras passaram na minha cabeça, depois e no último plano parado, em que se vê as escadas de uma escola, um pequeno fluxo de entrada e saída, e uma conversa entre dois jovens (uma resposta ao primeiro plano?),um plano real final face ao primeiro plano real. Gosto que o realizador nos lance o olhar pela rua de Iris, e que é bem jogado. Gosto que nos deixe naquele plano final, assim após uma cena, que me fez tanto lembrar David Lynch. Será um pesadelo de más memórias a fechar que abre toda a história? Não só aí vejo a sombra de David Lynch, mas também nas cassetes de video, que é o ponto do thriller policial psicológico ou não do filme, que me faz lembrar da estrada perdida de Lynch. Pontes que fiz enquanto vi o filme, por não conseguir deixar o olhar todo dentro da história. Há palavras que se jogam para dentro do filme, culpabilidade, metáfora política, manipulação, consciência.  Manipulação tão nítida, quando Daniel no seu trabalho manipula imagens do seu programa televisivo. Manipulação, que apesar do formato do filme, o realizador não quis declaradamente no final, no último plano, ter um plano fixo nas escadas de uma escola, não há manipulação do tempo, está ali o tempo a passar. E termina assim o end que é o nosso início para o nosso filme, na cabeça.Ele dá-nos essa liberdade. Ele recusa dar um significado claro, apesar do filme ter sido inspirado num documentário sobre o massacre de 1961, dos imigrantes da Algéria em França, e por ter ficado chocado que tal tivesse acontecido num país liberal. Contudo, tal facto que é espelhado na relação entre Daniel e Majid, não aponta somente para uma realidade francesa, uma memória colectiva de tal índole  pode ser transportada  para outros países, como Alemanha, ou a situação política do Iraque.Há vários pontos que gostaria de assinalar(e que não haverá muito tempo para tal). Um deles é a história cómica que é contada, na mesa de jantar entre o casal e os casais amigos, onde está também evidente todo o jogo realidade/ficção, verdade/mentira. Uma súmula, talvez, ou o espelho que Haneke gosta de trazer  para os seus filmes e jogar-nos na cara, puro e duro, sem artifícios. Tão real como o primeiro e o último plano.


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