Não há outro caminho

Para o Vitor

Os poemas podem ser desolados

como uma carta devolvida,

por abrir. E podem ser o contrário

disso. A sua verdadeira consequência

raramente nos é revelada. Quando,

a meio de uma tarde indistinta, ou então

à noite, depois dos trabalhos do dia,

a poesia acomete o pensamento, nós

ficamos de repente mais separados

das coisas, mais sozinhos com as nossas

obsessões. E não sabemos quem poderá

acolher-nos nessa estranha, intranquila

condição. Haverá quem nos diga, no fim

de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?

Não sabemos. Mas escrevemos, ainda

assim. Regressamos a essa solidão

com que esperamos merecer, imagine-se,

a companhia de outra solidão. Escrevemos,

regressamos. Não há outro caminho.

Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia, Averno 2005.

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