Cuidado. Vem aí a Caravana.

Abril 18, 2008

Amanhã a cidade do Porto estará em alerta vermelho. Está previsto a chuva de uma macieira por volta das 16h31. A apanha da laranja será na Livraria Gato Vadio  (Rua do Rosário, 281).


O Homem sem qualidades

Abril 18, 2008

Hoje o suplemento ípsilon faz um grande destaque ao Homem sem Qualidades, de Robert Musil e com uma entrevista ao tradutor João Barrento.

Não lhe parece que o tempo em que vivemos, marcado pela rarefacção de um real que possamos sentir como nosso, acaba por ser um tempo adequado à leitura deste livro?

É verdade. Desde que o leitor actual esteja disposto a ler um livro denso, e que ficará com umas duas mil páginas que é o tamanho da “Recherche” do Proust. Pode levá-lo para férias e lê-lo no Verão.

Quem comprar logo os dois volumes, pode sempre aproveitar nestes dias este desconto.  Ou o prazer da leitura.


Jogo de coisas

Abril 18, 2008

[As cores de Kandinsky]

O meu amigo Glauco passou-me um jogo de  coisas. Apesar de não ser nada  dada a estas coisas, agradeço e aceito o convite com a condição de alterar tudo (eheh). Sabendo que a origem do jogo é italiana, não podia ser de outra maneira.

Seis coisas que amo:

palavra : livro : ler : escrevinhar em cadernos sem linhas ; imagem : fotografar , filmar e claro ver cinema e montanhas; som : escutar o mar, a natureza, a música, o silêncio ; água/ar/terra/fogo : nadar, imaginar, viajar, sonhar; mar :cheiro da maresia, força, tranquilidade, infinito ; natureza : estar entre , ar, paz, caminhar. Mais do que coisas, amo pessoas.

Passo este jogo para uma kantiana que gosta destas coisas e que fará uma abordagem kantiana da coisa. Sei que os outros cinco e outros mais não estariam muito interessados. Sabendo mais que é italiano.


Interior

Abril 17, 2008

Vilhelm Hammershøi,
Interior, Strandgade 30, 1903.


Ver uma vez não chega

Abril 16, 2008

O lance do poema

Abril 16, 2008

Quando o mar é pela voz de Adriana

Abril 16, 2008

Três

Um
Foi grande o meu amor
Não sei o que me deu
Quem inventou fui eu
Fiz de você o sol
Da noite primordial
E o mundo fora nós
Se resumia a tédio e pó
Quando em você tudo se complicou

Dois
Se você quer amar
Não basta um só amor
Não sei como explicar
Um só sempre é demais
Pra seres como nós
Sujeitos a jogar
As fichas todas de uma vez
Sem temer naufragar
Nao há lugar pra lamúrias
Essas não caem bem
Não há lugar pra calúnias
Mas porque não
Nos reinventar

Três
Eu quero tudo o que há
O mundo e seu amor
Não quero ter que optar
Quero poder partir
Quero poder ficar
Poder fantasiar
Sem nexo e em qualquer lugar
Com seu sexo junto ao mar

Música de Marina Lima e poema de António Cícero. Interpretado de forma estupenda por Adriana Calcanhotto.
E Maré desdobra-se em marés.


A música de L’amour à mort

Abril 15, 2008

Fotogramas de L’Amour à Mort, de Alain Resnais.

 


As divisões

Abril 15, 2008

A divisão começa logo no início com as divisões da casa, a janela é a mesma para dois espaços divididos por uma parede, ou aqui ficamos congelados ou ficamos sufocados,diz uma das personagens, na primeira casa que visita. A divisão percorre todo o filme, desde da divisão de espaço na imobiliária até a divisão de um balcão, de dentro para fora e, na verdade, estão todos a cantar a mesma canção. Uma canção em que a toada é a solidão. Toda essa solidão de divisões para espaços como atrás de um balcão, o canto de uma mesa de um restaurante barulhento,o canto de um sofá. Todas essas casas têm como pano de fundo uma janela de neve constante, tão artificial, que só foca aqui o palco do que se passa à frente. Ou a neve constante que é retirada dos casacos, um inverno gelado, o coração frio. Ou a neve igual a que temos em L’Amour à Mort, que é constante num separador negro, a prolongar emoções, a desdobrar tempos, o ritmo da música. As personagens movimentam-se como estivessem a seguir traços de giz de um encenador , não surpreende aqui. Aqui ou acolá o filme puxa-nos um sorriso ou riso.Há um diálogo delicioso com a cassete de video, na imobiliária. Numa teia de momentos cómicos e dramáticos, a televisão leva as suas alfinetadas merecidas. Coeurs de Alain Resnais, em grande forma.


O vento

Abril 12, 2008

Fotogramas de Quando uma mulher sobe as escadas, de Mikio Naruse.

It had been a bleak ordeal,

like a harsh winter

 

but the trees that line the streets

can sprout new buds

 

no matter how cold the wind.

 

I too must be just as strong

 

as the winds that gust around me.


A sala Eduardo Prado Coelho.

Abril 9, 2008

Ontem estive na biblioteca de Camilo Castelo Branco, em Famalicão. Queria conhecer a sala Eduardo Prado Coelho. Ainda não entendi muito bem o porquê do espólio do escritor ter ido para a cidade de Famalicão, apesar da justificação estar ligada  a um prémio. A sua biblioteca pessoal é impressionante, embora ainda esteja somente uma pequena fatia do total. Predomina o francês, predomina a filosofia. Abri muitos livros. Muitas são as dedicatórias, muitos são os sublinhados e também muito é o silêncio em muitos dos livros, nem uma única marca. Não vi o seu nome, nem data, em qualquer um. Agora um carimbo. Espantou-me um arvoredo de sublinhados pela segunda edição de Húmus, com um grande destaque para “atrás do muro”, no seu índice. Gostei de ver um anagrama, na última folha branca, num canto, com nomes de amigos e não só, em Do Mundo, de Herberto Helder. Às tantos leio, pela voz  de Ana Teresa Pereira : O que acontece às personagens quando o escritor vai embora? E a outra pergunta terrível, muito mais terrível: o que acontece ao escritor? . Quando atravessares o rio, página cinquenta. Em A imperfeição da Filosofia, no canto superior de uma das páginas pergunta : há um antídoto para a dor, para a morte? Ou Afinal o futuro era isto, este verso de Rui Pires Cabral é retirado do corpo de um poema para ficar no rosto do livro.


Audição fetal

Abril 8, 2008

Trazemos connosco toda a música: ela repousa nas camadas mais profundas da recordação. Todo o musical pertence à reminiscência . No tempo em que ainda não tínhamos nenhum nome, já devíamos ter escutado tudo.

E.M.Cioran, Das Lágrimas e dos Santos, citado por Peter Sloterdijk.


Onde estamos quando ouvimos música?

Abril 8, 2008

Então, onde estamos quando ouvimos música? A indicação do local permanece vaga; apenas é certo que nunca se pode estar completamente no mundo quando se está a ouvir música. Porque ouvir, no sentido musical, quer sempre dizer ou ir ao encontro do mundo ou fugir dele. Por isso, na aproximação a ontologia do ouvido surgem de novo as perguntas daquela antiga gnose que , na modernidade, apenas se pode manifestar anonimamente.O humano ser-no-mundo representa-se, segundo a compreensão gnóstica, como um ser indo ou com um ser vindo, nunca como um insistir e habitar,por mais que Heidegger numa tardia viragem criptocatólica tenha tentado de novo abordar o homem como um inquietante ser que habita. Representam-se, com razão, os anjos como músicos, apenas tocam, não ouvem nada. Se fossem ouvintes, seriam semelhantes a nós. Mas nós estamos condenados à música, como à saudade e à liberdade. Enquanto arte dos condenados, a música continuará a ser, segundo uma expressão de Thomas Mann, até nova ordem, um território demoníaco.

O Estranhamento do Mundo, Peter Sloterdijk, Relógio d’Água, pág 179.


A Caravana já está nas livrarias

Abril 7, 2008

O que posso dizer é que são muitas laranjas para uma só caravana.


Vai começar neste verão

Abril 7, 2008

com Juventude em Marcha.

o cinema europeu voltou novamente à rtp 1, aos domingos. ontem já começou com Lady Chaterly, de Pascale Ferran.no entanto, com esse horário,…

uma lição política do cinema francês.


Riscos

Abril 3, 2008

Uma excelente entrevista feita ao realizador Pedro Costa por Michael Guillén. Enquanto não há notícias da Midas, ficamos a aguardar os filmes.

What I like about O Sangue is this sense of the long night of childhood that embraces a lot of films that were made and a lot of American books [that I read]. I’m remembering this now while I’m here, but there was a writer that I loved, Flannery O’Connor, and probably the title [of O Sangue] comes from O’Connor. I think I stole some things - like the [relationship of the] boy and the uncle - from one of her books, The Violent Bear It Away.

Let’s not make this pretentious; but in some ways my films are dangerous because I work within limited financial means. There’s not that much money that comes in and less and less every year. You can feel it. Also, there are less possibilities of showing my films. But they’re dangerous in the sense that I have to risk each shot of my film. There’s a French writer, Céline, who I like a lot. He wrote Journey to the End of the Night, a classic novel. He used to frequently say that the writer should “put his skin on the table”; that was his expression. I feel the same way. If you don’t risk yourself and the people with whom you’re working in almost every shot you make, it’s not good, it’s useless, it’s just another film.


De 3 a 9 Abril

Abril 2, 2008

Nos cinemas do Bom Sucesso, nesta quinta-feira estreia Coeurs , de Alain Resnais. Que bom!

Continua no Teatro do Campo Alegre : O Voo do Balão Vermelho e Três Tempos de Hou Hsiao-hsien.

ciclo CINEMA E ARQUITECTURA

BELARMINO  de Fernando Lopes
segunda-feira, 7 Abril, 22h (com a presença do realizador).

DOURO, FAINA FLUVIAL + O PINTOR E A CIDADE de Manoel de Oliveira terça-feira, 8 Abril, 22h (com a presença do realizador).

AMOR - ciclo CINEMA E FILOSOFIA

segunda-feira, 7 Abril, 21h30, CYRANO DE BERGERAC  de Jean-Paul Rappeneau (conversa entre Maria Cândida Pacheco e Emília Pinto de Almeida).

terça-feira, 8 Abril, 21h30,ONDAS DE PAIXÃO  de Lars Von Trier , conversa entre Eugénia Vilela e Costa Macedo.

quarta-feira, 9 Abril, 21h30,EL REY PASMADO ,de Imanol Uribe (conversa entre Horácio Lourenço e Maria do Carmo Serem).

ciclo CINEMA E ARQUITECTURA

quarta-feira, 9 Abril, 18h30,TRENTA METRES I UN BALCÓ; de Adriana Salvat + O DESPREZO/LE MÉPRIS  de Jean-Luc Godard.

E :
- 11 de Abril - 18.30 - “Vontade Indómita”, King Vidor (Teatro do Campo Alegre)
- 12 de Abril - 18.30 - “O Meu Tio”, Jacques Tati (Teatro do Campo Alegre)
- 15 de Abril - 18.30 - “O Arquitecto e a Cidade Velha”, Catarina Alves Costa (Teatro do Campo Alegre)
- 16 de Abril - 18.30 - “Alice”, Marco Martins (Teatro do Campo Alegre)


Em Março

Abril 1, 2008

Fotogramas de Into the Wild, de Sean Penn, No Country for old men, de Ethan e Joel Coen, Eastern Promises de David Cronenberg, Estate Violenta, de Valerio Zurlini, Roma, Cittá Aperta, de Roberto Rossellini, Run Lola Run, de Tom Tykwer, La Ragazza con la Valigia, de Valerio Zurlini,Identificazione Di una Donna, de Antonioni, As Invasões Bárbaras, de Deny Arcands, Wonder Boys, de Curtis Hanson,The Conversation de Francis Ford Coppola, Rosemary’s Baby, de Polanski, My Blueberry Nights de Wong Kar-Wai e Nachmittag de Angela Schanelec.

Apesar de ser  muito violento e ter um ritmo demasiado certo, ou melhor, um compasso certíssimo, No Country For Old Men tem pormenores interessantes e tem uma personagem poderosa, o xerife que carrega consigo um passado e todo o desencanto.

Em Eastern Promises, Cronenberg volta ao seu tema caro, a violência, até ao mais rente dos ossos, até à bainha da alma. Um motorista de uma família mafiosa que quer ser “rei” e para tal vai deslizando um dominó, até às primeiras estrelas e últimas. O que mais me impressionou foi o local em que corpos eram deixados, sujo, apertado, escondido, um beco sem saída.

Estate Violenta, de Valerio Zurlini é um filme memorável. Aqui o pessimismo está abraçado com o medo das cinzas de um romance. A primeira cena de alegria, de tango e massa, e depois mais adiante uma  cena de dança com uma troca forte de olhares, entre os dois amantes, e também a chama do circo, é o fogo que arde e depois as cinzas, a violência antes do último comboio.

Ainda continuo a pensar como é que Rossellini coloca uma cena cómica antes de uma cena tão dramática, como aquele riso daquela mulher face ao resistente e depois a queda.

La Ragazza con la Valigia, de Valerio Zurlin é outro excelente filme. Depois de o ter visto, fiquei a pensar nele e ainda não consegui ter as melhores palavras. Nem sei se vou ter.

Em Identificazione Di una Donna, há um cineasta que procura um rosto para um filme e, na vida, busca a sua mulher ideal. Uma mulher com a qual pode comunicar, como ele gosta de comunicar com a natureza. Antonioni tem uma queda para as cores e aqui se vê na troca de vermelho e azul, quer da mulher ou do homem, como fossem as marcas dos sentimentos do momento. Nunca se vê os dois amantes vestidos da mesma cor.

Em The Conversation de Francis Ford Coppola, há um homem que depois de muitos anos a fazer o que faz, começa a ver o outro lado, o da responsabilidade e o da moral, o que é certo e o errado. Não há uma obsessão por uma imagem como Blow Up, mas por sons ,por uma conversa. A cena final é o final mais desolador que poderia haver. O som do saxofone numa casa destruída e cortada com qualquer outro som (ou não).

My Blueberry Nights de Wong Kar-Wai não é decepcionante, mas depois de atravessar todo o filme, encontro do outro lado da rua, o mesmo Wong Kar-Wai, a utilizar a mesma bagagem. Gostava que Kar-Wai surpreendesse com outro filme sublime, mas aqui está longe. Agrada-me ver um road-movie, porque há sempre estradas, e àqueles céus são de “morrer” naquelas estradas. Uma mulher que sai da sua cidade, para se afastar de um desgosto amoroso e para se encontrar com ela mesma, cruza com outras aventuras, com outras histórias e volta. Tem à sua espera o homem da tarte de cereja e das batatas fritas com porco, o homem que tem como a câmara de vigilância do seu restaurante, como o seu diário. A banda sonora é estupenda, começando com Cat Power, com o seu The Greatest, passando pelo Try a little Tenderness, de Otis Redding, e pelo Harvest Moon de Neil Young.

Nachmittag de Angela Schanelec é um óptimo filme, que adapta a Gaivota. Fiquei surpresa com a qualidade do mesmo, a qualidade fotográfica e a clareza sonora. Fez-me lembrar Bergman, em especial na cena dos jovens perto do rio, mas isso não interessa nada. É um filme que vou rever com toda a certeza.


Outro tempo

Março 28, 2008

Alguns cientistas estão a utilizar os escritos de Thoreau deste modo .

The journals of Henry David Thoreau help scientists in New England investigate global warming’s effect on the timing of spring. Thoreau carefully documented the dates the blueberry bushes bloomed.


Número dois, Godard

Março 28, 2008

E se Godard fosse por um dia o chefe de redacção de um jornal francês,como seria?