Um breve poema
Abril 1, 2006Talvez a juventude apenas seja isto:
Sem arrependimento amar sempre os sentidos.
Sandro Penna, traduzido por David Mourão-Ferreira, na Colóquio de Letras, nº 165.
Talvez a juventude apenas seja isto:
Sem arrependimento amar sempre os sentidos.
Sandro Penna, traduzido por David Mourão-Ferreira, na Colóquio de Letras, nº 165.
Amigo, a longa noite sempre acaba
e por vezes é tão triste acordar e perceber
que juntos fizemos o solitário caminho
para o escuro de cada um. Como nos apela
essa travessia incerta pelo avesso de um desesperado
desejo de viver. Ao início há outro modo de encanto
que, uma vez esgotado, de novo se refaz:
sofreremos em comum o nosso tempo na cidade
e tudo o que dele pudermos compartir: a música,
a esquiva beleza de um verso, o sentimento
das coisas que entretanto perdemos
ou nunca chegámos a ter. Mas tu bem sabes
que a última canção desemboca fatalmente
no silêncio mais cruel - o que trazemos connosco
e não podemos sanar. Abre por fim a janela,
repudia outra vez o cansado mundo e o dia
que gastámos de antemão nessa funda vontade
de não estar, nada ser, nada sentir.
Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia, Averno, 2005.
Na minha cidade, nos domingos de tarde,
as pessoas se põem na sombra com faca e laranjas.
Tomam a fresca e riem do rapaz de bicicleta,
A campainha desatada, o aro enfeitado de laranjas:
‘Eh bobagem!’
Daqui a muito progresso tecno-ilógico,
quando for impossível detectar o domingo
pelo sumo das laranjas no ar e bicicletas,
em meu país de memória e sentimento,
basta fechar os olhos:
é domingo, é domingo, é domingo.
Adélia Prado , Bagagem , 1976.
Da minha caixa de comentários, Ronaldo Cagiano (*)
A cidade se des(d)enha em seus próprios labirintos:
pelas serpentes de pedra e asfalto
corre pressuroso um rio de animais metálicos.
(*) Ronaldo Cagiano nasceu em Cataguases (MG, Brasil) e vive em Brasília desde 1979, onde se formou em Direito. Colabora em diversos jornais, revistas e suplementos, publicando artigos, resenhas, poesia e contos e participa de diversas antologias nacionais e estrangeiras. Publicou os seguintes livros: Palavra engajada (poesia, 1989), Colheita amarga & outras angústias (poesia, 1990), Exílio (poesia, 1990), Palavracesa (poesia, 1994), O prazer da leitura – em parceria com Jacinto Guerra (contos e crônicas juvenis, Brasília1997), Prismas – literatura e outros temas (coletânea de artigos e resenhas publicados em jornais, 1997), Canção dentro da noite (poesia, 1999), Espelho, espelho meu – co-autoria com Joilson Portocalvo (infanto-juvenil, 2000), Poetas mineiros em Brasília (Org., 2002), Dezembro indigesto (contos, 2002) – Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária 2001 e Concerto para arranha-céus (LGE Editora, 2004).
Não há mais lugar para os homens.
Anônimos, como areia na ampulheta,
vamos caindo, atarefados,
em busca da quarta margem: a utopia.
A metrópole, como um ventre,
espera o desconhecido
e na sua imensidsolidão geométrica
nascem catedrais de ausências.
Se Paris está lendo Paulo Coelho,
eis minha vingança:
vou ler Proust em Cataguases.
As gaivotas. Vão e vêm. Entram
pela pupila.
Devagar, também os barcos entram.
Por fim o mar.
Não tardará a fadiga da alma.
De tanto olhar, tanto
olhar.
Eugénio de Andrade, de Antologia Breve, 1972.
No mês de Dezembro saíram dois livros dedicados à poesia de Wallace Stevens, uma antologia e “O homem da viola azul”, pela Relógio d’Água. Só neste mês é que os vi nos escaparates das livrarias. Distracção minha ou tempo atrasado de novidade. Na antologia reúne-se mais poemas do que a “ficção suprema”,poemas que foram deixados de lado. Assim mesmo, “The Latest Freed Man” continua a fazer parte desses mesmos. Foi difícil escolher um para deixá-lo aqui. Entre o emblemático “The Snow Man, o estupendo “Sunday Morning”,o “Poem with rhythms”, entre outros, fiquei-me “On the Road Home”. Tradução de Maria Andresen de Sousa, de quem espero um livro de poemas, para breve.
No Caminho de Casa
Era quando eu dizia
“Não há uma coisa chamada verdade”
Que as uvas pareciam mais cheias.
A raposa acorria do seu buraco.
Tu…tu dizias.
“Há muitas verdades,
Mas não são partes de uma verdade”
Então,à noite, a árvore começava a transformar-se
Deitando fumo através do verde, fumo azul.
Éramos duas figuras numa floresta.
E dizíamos que estávamos sós.
Era quando eu dizia,
“As palavras não são formas de uma única palavra.
Na soma das partes só há as partes.
O mundo deve ser medido pelo olhar”;
Era quando tu dizias,
“Os ídolos viram muita pobreza.
Ouro e serpentes e piolhos
Mas não viram a verdade”;
Era nessa altura que o silêncio ficava maior
E mais longo, a noite mais redonda,
O perfume do Outono mais quente,
Mais próximo e poderoso.
Wallace Stevens, tradução de Maria Andresen de Sousa, Relógio de Água, 2005.
Whether what we sense of this world
is the what of this world only, or the what
of which of several possible worlds
–which what?–something of what we sense
may be true, may be the world, what it is, what we sense.
For the rest, a truce is possible, the tolerance
of travelers, eating foreign foods, trying words
that twist the tongue, to feel that time and place,
not thinking that this is the real world.
Conceded, that all the clocks tell local time;
conceded, that “here” is anywhere we bound
and fill a space; conceded, we make a world:
is something caught there, contained there,
something real, something which we can sense?
Once in a city blocked and filled, I saw
the light lie in the deep chasm of a street,
palpable and blue, as though it had drifted in
from say, the sea, a purity of space.
William Bronk, The World, the Worldless (1964).
Para o Vitor
Os poemas podem ser desolados
como uma carta devolvida,
por abrir. E podem ser o contrário
disso. A sua verdadeira consequência
raramente nos é revelada. Quando,
a meio de uma tarde indistinta, ou então
à noite, depois dos trabalhos do dia,
a poesia acomete o pensamento, nós
ficamos de repente mais separados
das coisas, mais sozinhos com as nossas
obsessões. E não sabemos quem poderá
acolher-nos nessa estranha, intranquila
condição. Haverá quem nos diga, no fim
de tudo: eu conheço-te e senti a tua falta?
Não sabemos. Mas escrevemos, ainda
assim. Regressamos a essa solidão
com que esperamos merecer, imagine-se,
a companhia de outra solidão. Escrevemos,
regressamos. Não há outro caminho.
Rui Pires Cabral, Longe da Aldeia, Averno 2005.