E nós dentro
Dezembro 11, 2007À direira e à esquerda
falésias, abismos, referver
de águas indisciplinadas.
Na estreita faixa do meio,
os carris são um pavor
perpendicular.
Ou melhor: são uma corda bamba
por onde avança, estouvado
saltimbanco de olhos vendados,
sem vara e sem cautelas,
o comboio e nós dentro.
A.M.Pires Cabral, Antes que o rio seque, Assírio & Alvim, 2006.
Escritório
Dezembro 11, 2007Oh! Eu amo as ocupações delicadas:
trabalhar no escritório, por exemplo,
quanto mais semelhante um dia ao outro,
tanto melhor, mais sápida rotina.
Oh! Eu amo conter o sol sempre lá fora,
barrar-lhe a entrada com estores eficazes,
mantê-lo prisioneiro sobre as ruas.
Oh Eu amo suscitar subitamente
nuvens de pó de cima dos arquivos.
Oh! Eu amo as longas conferições
de totais, subtotais, gerais e parciais,
adoro os algarismos e suas nunca
demasiado piscóticas sequelas.
oh! HCESAR : lindo nome de criança.
A.M. Pires Cabral, Antes que o rio seque, Assírio & Alvim, 2006.
Rua
Dezembro 11, 2007Sabemos só da rua a menor parte:
o trânsito, as vitrinas,
o carteiro. Quando muito
sabemos os gestos, alguns rostos, um
braço de criança estendido para a mãe,
o trôpego avançar dos mais idosos
utentes, os de menos duração.
Mas nem sempre sabemos os ínvios lugares,
os pontos de sofrimento,
as tão insuportáveis direcções.
Oh, não, da via crucis não sabemos
sempre a longa diária repetição,
o desamor das esquinas, a frieza
do cimento, do tempo a mastigação.
A.M.Pires Cabral, Antes que o rio seque, Assírio & Alvim, 2006.
Louise Brooks nua
Novembro 9, 2007Como pode passar? E isso que fica
O que é, que nos adentra e cerra os dentes?
Mar branco e rijo de auras lactescentes,
Poço de tudo que nos nulifica.
Mão fulminada a que ousa, a que suplica
À mais real das formas existentes.
Tu, lago de repouso, alvo dos entes,
Claro e negro lençol que não se explica.
Tu, pétrea maciez de únicas linhas,
O que não pode ser mais, que é uma onda
Interna de absoluto, entre as mesquinhas
Horas de um fim, murmúrio de saliva
Na alma, nuvem que em carne se arredonda
Além, onde?, e que vive,e que está viva.
30/09/2004.
Alexei Bueno, A Árvore Seca.
Uma pálida, pálida neblina
Julho 31, 2007Michelangelo, estamos tantas vezes
juntos a bordo de um barco que flui
pela corrente do Amu Darya,
e como com os nossos dentes abrimos
negras sementes de girassol.
Estamos rodeados de cordas, bidões de óleo
e trouxas de ciganas amontoadas
em frente do sidecar cor-de-rosa.
Durante todo o tempo, marinheiros
com longos paus mantiveram-nos
longe dos bancos de areia.
Sentados na borda do barco,
sem saber para onde nos levava,
olhávamos para a linha aquática do rio
a desaparecer, à distância,
num nevoeiro de uma pálida, pálida neblina
que te fez pensar
que a viagem acabaria em Ferrara.
Tonino Guerra, o longo companheiro de Antonioni.
Frases
Março 28, 2007Lancei cordas de campanário a campanário; guirlandas de janela a janela; a cadeias de ouro de estrela a estrela, e danço.
Enquanto dissipam os dinheiros públicos em festas de fraternidade, um sino de fogo rosa toca nas núvens.
Jean-Arthur Rimbaud, Iluminaçoes, tradução de Mário Cesariny, Assírio&Alvim.
Fiama
Janeiro 20, 2007Depois de traduzir Hélène Dorion
Amar o universo não me traz mágoa.
sobretudo, amar a areia
arrebata-me de júbilo e paixão.
Amar o mar completa a minha vida
com o tacto de um amor imenso.
Mas veio o vento e, por momentos,
amargurou o meu corpo, a oscilar.
E está o sol aqui, depois de uns dias
de jardim obscurecido, a beber sombra.
E sei que os átomos zumbem
e dançam como os insectos
ébrios em redor do pólen.
Fiama Hasse Pais Brandão, Cenas Vivas, Relógio d’ Água, 2000.
De um sonho
Uma casa que sonha com o mar
tem a luz que está a ser sonhada.
Nela, os habitantes vivem e morrem,
ouvindo só o som do mar distante.
Porém um dia, os habitantes saem
para o mar. A casa acorda
e não mais se recorda do seu sonho,
deixando entrar outro sol da realidade.
Fiama Hasse Pais Brandão, As Fábulas, Edições Quasi, 2002.
Janeiro 10, 2007
Talvez
o tempo
decantando o movimento
separe dentro com os mesmos dedos
a queda
do que ainda cai
Providência e precaução
que não livram no entanto
teu percurso
do teu invisível resumo desse chão
Leonardo Gandolfi, “No entanto d’Água”, 7Letras.
Os primeiros encontros
Janeiro 6, 2007
Cada momento passado juntos
Era uma celebração, uma Epifânia,
Nós os dois sózinhos no mundo.
Tu, tão audaz, mais leve que uma asa,
Descias numa vertigem a escada
A dois e dois, arrastando-me
Através de húmidos lilases, aos teus domínios
Do outro lado, passando o espelho.
Arsenii Tarkovskii
© 8 Ícones (Assírio & Alvim).
Uma boa notícia : a colheita do Fantasporto 2007:
retrospectiva Mosfilm (cinema russo) - retrospectiva dedicada ao Tarkovsky e não só;
retrospectiva Marin Karmitz;
homenagem oficial à cinematografia grega;
Kim-Ki-Duk vs Shynia Tsukamoto;
Esplanadas
Agosto 7, 2006Um sofrimento parecia revelar
a vida ainda mais
a estranha dor de que se perca
o que facilmente se perde:
o silêncio as esplanadas da tarde
a confidência dócil de certos arredores
os meses seguidos sem nenhum cálculo
Por vezes é tão criminoso
não percebermos
uma palavra, uma jura, uma alegria
José Tolentino Mendonça, A noite abre meus olhos, Assírio & Alvim, 2006.
A noite abre meus olhos
Agosto 7, 2006Os amigos
Esses estranhos que nós amamos
e nos amam
olhamos para eles e são sempre
adolescentes, assustados e sós
sem nenhum sentido prático
sem grande noção da ameaça ou da renúncia
que sobre a luz incide
descuidados e intensos no seu exagero
de temporalidade pura
Um dia acordamos tristes da sua tristeza
pois o fortuito significado dos campos
explica por outras palavras
aquilo que tornava os olhos incomparáveis
Mas a impressão maior é a da alegria
de uma maneira que nem se consegue
e por isso ténue, misteriosa:
talvez seja assim todo o amor
José Tolentino Mendonça , A noite abre meus olhos [poesia reunida],Assírio & Alvim, 2001
Agora sim a editora Assírio & Alvim editou uma verdadeira colecta de um dos meus poetas. Não os tais famosos tijolos de 354 páginas, mas sim num formato quase A5 ,de lombadas de cor de vinho, na capa um desenho de Ilda David, os poemas de Tolentino Mendonça.
Visto de perto
Junho 8, 2006Visto de perto é a melancolia.
Assim todas as manhãs a de hoje e a seguinte.
Visto de perto não é barco é melancolia.
João Miguel Fernandes Jorge, “À beira do mar de Junho”.
A única coisa que vem a seguir é o mar.
Maio 25, 2006Colhendo amoras
Ninguém no caminho, e nada, nada a não ser amoras,
amoras dos dois lados, embora mais à direita,
uma álea de amoras, descendo em curvas fechadas, e um mar
algures, lá ao longe, arfando. Amoras
tão grandes como a cabeça do meu polegar, e mudas como olhos
negros nas sebes, repletas
de um suco azul-vermelho. Este desperdiça-se nos meus dedos.
Não pedira tal comunhão de sangue; devem amar-me.
Comprimem-se numa garrafa de leite, de encontro aos seus lados.
Sobre mim passam, com a sua cacofonia, os corvos em
bandos negros,
pedaços de papel queimado oscilando num céu ventoso.
A sua voz é a única que está a protestar, a protestar.
Julgo que o mar não vai mesmo aparecer.
Os verdes e altos prados brilham como iluminados por dentro.
Chego a um arbusto de bagas tão maduras: é um arbusto de moscas,
suspendendo os seus abdómens azuis esverdeados e os
vidrilhos alados de um biombo chinês.
O festim de mel das bagas surpreendeu-as; julgam-se no paraíso.
Para além de uma curva, as bagas e os arbustos acabam.
A única coisa que vem a seguir é o mar.
De entre duas colinas sopra contra mim um vento súbito,
sacudindo como fantasmas a sua roupa branca contra o meu rosto.
Estas colinas são demasiado verdes e suaves para terem saboreado o sal.
Sigo, entre elas, a vereda aberta pelas ovelhas. Uma última curva leva-me
até à face norte das colinas, e a face é urna rocha alaranjada
que olha para nada, nada a não ser uma grande extensão
de luzes brancas e cor de estanho e um ruído como o de um ourives
batendo sempre um metal rebelde.
Sylvia Plath, Pela Água, tradução de Maria de Lourdes Guimarães.
Dá-me
Maio 21, 2006Dá-me algo mais que silêncio ou doçura
Algo que tenhas e não saibas
Não quero dádivas raras
Dá-me uma pedra
Não fiques imóvel fitando-me
como se quisesses dizer
que há muitas coisas mudas
ocultas no que se diz
Dá-me algo lento e fino
como uma faca nas costas
E se nada tens para dar-me
dá-me tudo o que te falta!
Carlos Edmundo de Ory, poema mudado para português por Herberto Helder, em Doze Nós Numa Corda, Assírio & Alvim.
Maio 17, 2006
de Sophia Mello Breyner Andresen, de João César Monteiro, 1969 (à memória de Dreyer).
Quando eu morrer voltarei para buscar
Os instantes que não vivi junto do mar
Sophia de Mello Breyner Andresen
It can never be satisfied, the mind, never.
Maio 14, 2006Parece ser o ano de Wallace Stevens (e ainda bem que o é), depois de uma antologia e do Homem da Viola Azul, chega Harmónio , o primeiro livro de poemas de Stevens.
The Well Dressed Man With A Beard
After the final no there comes a yes
And on that yes the future world depends.
No was the night. Yes is this present sun.
If the rejected things, the things denied,
Slid over the western cataract, yet one,
One only, one thing that was firm, even
No greater than a cricket’s horn, no more
Than a thought to be rehearsed all day, a speech
Of the self that must sustain itself on speech,
One thing remaining, infallible, would be
Enough. Ah! douce campagna of that thing!
Ah! douce campagna, honey in the heart,
Green in the body, out of a petty phrase,
Out of a thing believed, a thing affirmed:
The form on the pillow humming while one sleeps,
The aureole above the humming house…
It can never be satisfied, the mind, never.
em Harmonium , 1923.
(Wallace Stevens também gostava de longos passeios pela cidade).
Postal Ilustrado
Maio 12, 2006
(Avenida de tílias, Jardim Botânico, Coimbra, 2006).
Uma figura de mulher encaminha-se para a floresta.
Vai devagar. Desce a longa avenida de ventos que,
rudemente, lhe estilhaçam os ouvidos.
Quis adivinhar o seu rosto. Descrever as cores
do vestido que lhe estreita o corpo, o movimento
dos braços para a frente, o ruído dos passos lentos
sobre as amarelecidas folhas. Mas ela é, cada vez mais,
um ponto que se afasta. Uma vontade perdida
para o dobrar das árvores à sua passagem.
Quando a mulher entrar na floresta
tudo se suspenderá. A solidão da paisagem
será a minha solidão.
Os meus olhos serão os olhos da paisagem.
Luís Quintais , “A Imprecisa Melancolia”, Teorema,1995
A poesia
Abril 2, 2006Desde os alvores do século se discute
se a poesia existe dentro ou fora
primeiro venceu o dentro, depois contra-atacou
duramente o fora
e desde há anos se assiste a um empate
que não poderá durar visto que o fora
está armado até aos dentes
Eugenio Montale, traduzido por David Mourão-Ferreira, no Colóquio de Letras, nº 165.
Publicado por Lídia Aparício