Cuidado. Vem aí a Caravana.

Abril 18, 2008

Amanhã a cidade do Porto estará em alerta vermelho. Está previsto a chuva de uma macieira por volta das 16h31. A apanha da laranja será na Livraria Gato Vadio  (Rua do Rosário, 281).


O Homem sem qualidades

Abril 18, 2008

Hoje o suplemento ípsilon faz um grande destaque ao Homem sem Qualidades, de Robert Musil e com uma entrevista ao tradutor João Barrento.

Não lhe parece que o tempo em que vivemos, marcado pela rarefacção de um real que possamos sentir como nosso, acaba por ser um tempo adequado à leitura deste livro?

É verdade. Desde que o leitor actual esteja disposto a ler um livro denso, e que ficará com umas duas mil páginas que é o tamanho da “Recherche” do Proust. Pode levá-lo para férias e lê-lo no Verão.

Quem comprar logo os dois volumes, pode sempre aproveitar nestes dias este desconto.  Ou o prazer da leitura.


A Caravana já está nas livrarias

Abril 7, 2008

O que posso dizer é que são muitas laranjas para uma só caravana.


Um falcão no punho

Março 4, 2008

XIV

 eu via nela tanta beleza

que não resisti à vontade súbita de brincar com ela.
Dei a Dickinson uma carta e, na volta do correio, recebi notícias sobre o absurdo do tempo, sobre pirilampos e outros still lives.

Dei a Rilke o meu cavalo, e ele ofereceu-me uma matilha de cães adestrados para o combate, o que, no meu caso, era absolutamente um luxo superior às minhas posses.

Dei a Rimbaud a parte mais recôndita desta casa e, no escuro mais espesso, não resistiu a mostrar-me a sua nudez musical.

Dei a Musil uma balança que não pende mais para um lado do que para outro e, na sua hesitação, esperou por mim.

Dei a Hölderlin, o velho, meu irmão, uma bilha e a minha tristeza quebrou-se.

Dei a Aossê uma família de aves e ele iluminou-me a fisionomia do rosto.

Entreguei ao meu ambo o estudo da terra e ele criou uma atmosfera propícia à minha alegria.

Dei à rapariguinha que me atacava de surpresa, com pequenas forças, um rebento que nasceu ao pé da tília do jardim.

E não tem medo da morte? Tenho, ao raiar do dia.
Nasceu, então, o primeiro riso entre nós.

E ela disse-me que eu seria natural em todas as coisas.
Natural? Quereria ela dizer “espontânea”? Não, queria dizer “naturalmente”.
E, de repente, eu soube naturalmente que haveria entre nós um combate mortal,

vida contra vida
porque todos somos incompletos a certas horas do dia.

Maria Gabriela Llansol, Onde vais, drama-poesia?, Relógio d’ Água, pág 79 e 80.


Próximas leituras

Março 2, 2008

A par de “A última estação”,  de Jay Parini (Presença), também quero muito ler o “Estranhamento do Mundo”(Relógio d’ Água), de Peter Sloterdijk.

O primeiro editado em 1990 nos Estados Unidos e o segundo editado em 2001 em Espanha.

Quando é que a Martha Nussbaum merecerá a atenção das editoras portuguesa?

Tudo aponta que O Homem sem Qualidades, de Robert Musil  (Dom Quixote) vai chegar às livrarias em Março. É uma excelente novidade para quem espera esse livro já há algum tempo. A tradução é de João Barrento. 

Ainda em Março,pela Booket, As Ilusões Perdidas, de Balzac, da colecção de autor de António Lobo Antunes. E, pela Assírio & Alvim, as cantinas e outros poemas do álcool e do mar, de Malcolm Lowry.


Dez minutos de vida

Fevereiro 22, 2008

Na frase : “Penso, logo existo”. O “eu” do “existo”  não é o mesmo do “eu” do “penso”. Porquê? A sensação que tenho da existência ainda não tem um “eu”. É uma sensação irreflectida que nasceu em mim, mas sem mim.

Não podemos dizer nada sobre nada. É por isso que o número de livros não pode ser limitado. Todos os corpos juntos, todas as mentes juntas…e tudo o que elas produzem não merecem a mínima expressão de caridade. Pertencem ao infinito.

em Dans le noir du temps, de Godard, incluído em Dez minutos de Vida - O Violoncelo.


Chegadas e esperas

Fevereiro 4, 2008

Há dias o jornal Guardian publicou um artigo interessante sobre o novo livro de George Steiner, My Unwritten Books. Um dos capítulos começa assim : What is the sexual life of a deaf-mute?.Depois de dez anos da sua Errata, temos sete capítulos do que ainda não disse e do foro mais pessoal também. Pela Gradiva, temos Provas e Três Parábolas de George Steiner.

Já estão aí Sixty Poems de Charles Simic, porque também está quase aí The Pulitzer Prime. Depois da Previsão do Tempo para Utopias e Arredores (da Assírio & Alvim) é que não tivemos mais previsões, com ou sem prémios. Talvez seja como diz Howard Nemerov no seu poema The Blue Swallows : O swallows, swallows, poems are not / The point. Finding again the world.

Outro prémio é o de Susan Sontag, o de tradução de alemão para inglês e must be a work of contemporary fiction by a living German writer.

Paul Auster vai voltar em 2008, com Man in the Dark, pela mão da sua editora que apresenta novidades até Março, 30  títulos.

Cosac Naif é uma das minhas editoras de eleição. Uma editora que procura sempre a perfeição, desde do conteúdo, até ao acabamento do livro. Em Outubro passado, a Cosac editou a primeira obra de Serge Daney, onde se reúne os seus artigos escritos nos anos 1970-1982. A rampa é uma jóia, para quem gosta de flâneurs das imagens.

Falando em cinema, o Público está com uma nova colecção: Cahiers du Público, que arranca com Charles Chaplin. Ainda não sei quem é o que segue.Link ainda não disponível no site.

A Byblos abre no coração do Porto, na abandonada praça de Lisboa, povoada pelas pombas e pouco mais, mesmo ao lado da Lello e perto da Leitura. Gostei das oliveiras.


Finalmente, Kalevala

Novembro 22, 2007

Finalmente, há uma editora, nova, o Ministério dos Livros, que ousa em editar um dos maiores poemas épicos da história, neste caso da Finlândia,Kalevala. Há muito esperado ( por alguns). Finalmente.


Debaixo do Vulcão

Outubro 14, 2007

 

Vi há instantes numa estante à venda uma nova edição de Malcolm Lowry, Debaixo do Vulcão, pela Relógio d’Água. Uma boa novidade.

 Párian.


depois da noite, ouço o pasavento

Março 4, 2007

Depois de fechar o caderno azul de Auster, volto ao Enrique Vila-Matas, ao seu  Doutor Pasavento. Agora dou-me conta que fiz mal em não ter lido entre a noite o pasavento. Não sei se Pasavento também poderia desaparecer num quarto sem maçaneta para a realidade de fora, vou começar agora o passeio:

Passeávamos pela chamada alameda do fim do mundo, um melancólico trilho junto do castelo de Montaigne, quando me perguntaram:
- Donde vem essa tua paixão por desapareceres?

Enrique Vila-Matas, Doutor Pasavento, página início.


novamente

Março 4, 2007

Não sei se parto, se regresso, se volto, se retorno, se viro a esquina e se volto novamente. Bem,Paul Auster fez-me entrar na noite oráculo através de uma porta fechada, ou uma porta ficou mesmo fechada, no miolo, de tantas outras portas abertas, entre cadernos (utiliza uma vez a palavra caderno na versão original) azuis portugueses e acasos, notas de rodapés a fazer muito chão ao primeiro plano, ou simplesmente as suas bonecas matruskas que ele tanto gosta de vestir ao seu gosto. Na sua noite de oráculo elas estão vestidas de azul.

27 Grace estudara na Rhode Island School of Design e , no penúltimo ano do curso, participara num programa que previa que os estudos decorressem em Paris. Trause escrevera-lhe uma carta em que falava de van Velde, com quem se cruzara uma ou duas vezes nos anos 50 e que, segundo ele, era conhecido como o artista preferido de Beckett. (Trause incluíra na sua carta de Beckett com Georges Duthuit sobre van Velde. O que penso é que van Velde é (…) o primeiro a admitir que ser um artista é falhar, falhar como mais ninguém ousa falhar, que o fracasso é o seu mundo (…)).

Paul Auster, A Noite do Oráculo, pág 152, nota de rodapé 27.

Muito curiosa para ver ‘The Inner Life of Martin Frost’ . Em breve, estará aqui.

Nota : foi também um acaso que me levou a  esta notícia de Washington Post. 

Chegou ao mercado espanhol em fevereiro, depois de um mês ter sido lançado nos Estados Unidos, Travels in the Scriptorium, o mais recente.


Como o cinema era belo

Janeiro 22, 2007

 

Há dias um amigo ofereceu-me o belíssimo catálogo de Fundação Calouste Gulbenkian, Como o Cinema era Belo, por João Bénard da Costa. Percentagemente bem explicado as escolhas dos seus filmes. Mizoguchi não está duplicamente. São várias as histórias que conta, com ou sem Langlois pelo meio, vários são os caminhos. Como começa, como Robert Bresson disse: “É preciso esculpir a ideia num rosto, através de luz e de sombra”, ou ainda :”O cinematógrafo é a arte de não mostra nada. É coisa de luz e de sombra. É preciso mais sombra.” [Cahiers du Cinéma,nº 140, Fevereiro de 1963]. (A minha paixão pelo cinema cresce a olhos vistos).

Imagem: fotograma: The Searchers.


o que andas a ler?

Janeiro 10, 2007

Ando a “saltitar” “da cidade nervosa” do Enrique Vila-Matas( última citação dessa cidade é de marguerite duras (na crónica indochina song):”Não sei se tenho medo da morte. Não sei quase nada desde que cheguei ao mar.” E acrescentava: “Escrever toda a vida ensina a escrever. Mas não nos salva de nada”.); a “petiscar” com vagar “Conversas com Wittgenstein”,O.kBouwsa ( do caderno de Wittgenstein sobre Moore no seu caderno de 1941:”Como Moisés, Moore conduziu-nos à Terra Prometida, entreviu-a, mas nunca chegou ele próprio a gozar dela”) ; a reler “No Entanto d’Água”, Leonardo Gandolfi;  a sublinhar “As Metástases do Gozo”, Slavoj Žižek, mais precisamente “David Lynch, ou a depressão feminina”; e a tentar “arrancar” com a “linguagem cinematográfica”, marcel martin, que apresenta como primeiras imagens : “o grito”, antonioni e “viagem a tóquio”, ozu. Tudo também graças ao novo 903.


F de Flaubert

Outubro 24, 2006

Imprescindível para admiradores da obra de Flaubert, em especial de Madame Bovary,este site , elaborado pela universidade de Rouen. A transcrição integral do manuscrito de Bovary ( via the literary saloon).


Hannah Arendt

Outubro 17, 2006

Hannah Arendt faria 100 anos no passado sábado, se fosse viva. Como as editoras ( e não só) gostam de datas redondas, tal facto não passou em branco, em especial pelas editoras espanholas, que acompanham sempre os centenários e não só. As novidades são várias. No entanto, entre as várias, destaca-se, sem dúvida, o Diário Filosófico, que é , nada mais nada menos, a transcrição dos seus 28 cadernos, onde Arendt apontava entre 1950 e 1973. São mais de mil páginas, por onde passam leituras, reflexões, resumos, comentários, aforismos, poemas. Não se trata,na sua índole, um diário verdadeiramente pessoal, mas um diário inclinado para o trabalho de pensamentos. Um bom ponto de partida, ou melhor, um acontecimento editorial.


Leitura (possível) do fim-de-semana

Setembro 17, 2006

Nessa cidade relativamente grande que é Lisboa…uma grande metrópole não é, aliás Viena também não, mas é ainda assim uma grande cidade, como tal essas duas cidades são para mim ideais, pode-se andar à vontade de um extremo ao outro, tem centenas de restaurantes, em toda  a parte se pode entrar. E lá tenho naturalmente também o mar, e eu sou, de facto um fanático do mar. Ou pelo menos nas proximidades, eu preciso da sensação de que o mar está próximo, nesse caso sinto-me renascer.

Kurt Hofmann, Em conversa com Thomas Bernhard, pág 110, Assírio & Alvim,  Agosto 2006.


Fragmentos de uma cidade

Abril 1, 2006

 

 São Paulo, via satélite.

Aviso aos incautos: este livro é um labirinto. E um tour de force. E um jogo de espelhos. E um caleidoscópio partido. E um trompe l’oeil. Pode entrar-se nele no início, a meio ou no fim. É indiferente. O resultado será sempre o mesmo porque deste inferno não há saída. O romance imita a cidade: é megalómano, triturador, ávido, gargantuesco. É um buraco negro que devora a paisagem, cada vez mais depressa. Um palimpsesto interminável.

José Mário Silva, no Suplemento 6.ª, do Diário de Notícias, ontem.


Apontamentos # 9

Março 9, 2006

(c) Marcus Doyle, Bus Shelter (Whitly Bay).

Post que foi para as calendas gregas, re-edit, com colagem memória, pelo meio. Mais banalidades: Hoje (ontem)descobri mais uma editora. Chama-se "Livros de Areia". O wordpress não quer linkar esta editora de Viana de Castelo, não sei porquê, nada contra. Tretas. Não sei, quando se fala tanto da falta de tempo para ler, etcs, há editoras novas, a surgirem, em tão curto tempos, como cerejas. Não entendo lá muito bem. Voltando,por que será que não há uma aposta nos livros de cinema? Não haverá clientes interessados na compra destes mesmos? Ok. Ficaremos com os pós-modernistas, e os seus jarros Deleuze. Para quê jarro, quando se pode beber à fonte?Prefiro ficar com as fronteiras para além do pensamento, que Deleuze quebra também, no campo do cinema. Deleuze faz pensar, pensando, que o cinema dá para pensar, cinema, imagem actual, imagem-lembrança, imagem-movimento,imagem-pensamento, imagem-sonho,imagens-mundo.

O "finalmente" rectificado, ainda não é nesta semana, que estreia o novo de Cronenberg, The History of Violence. Espera-se pela próxima.

Infelizmente também, não é para a próxima semana, que temos o olho dentro de inland empire.No entanto,…e que tal um fim-de-semana com o David Lynch?

Respondendo a este "se", devido ao grau de dificuldade na resposta,sigo o critério de escolher a música que me levou a conhecer a voz do Tom Waits, e posteriormente cheguei a tantas outras canções, pela mão do Al Berto, e de um amiga (com Closing Time).Peguei tarde o comboio do Tom.Dowtown Train.

Eles Eram Muitos Cavalos, sem dúvida uma admirável obra literária, não é um romance. Nem contos. Nem poemas. E, por vezes, nem sequer ficção. Afinal, as primeiras frases assinalam uma data e uma meteorologia. As seguintes introduzem a microbiografia de uma santa. E a penúltima página apresenta simplesmente um rectângulo negro.

A foto de Marcus Doyle, Bus Shelter (Whitly Bay), faz-me lembrar uma paragem do autocarro, que há na Foz, ao pé do café da Luz.

Saudades do mar.


D.

Fevereiro 16, 2006

Ontem fui a casa do João. É engraçado como, ao olhá-lo, vejo as suas idades todas. Conhecemo-nos tão bem! E sem palavras inúteis, sem efusões, de longe, ceriminiosos, a pingarmos ternura. De todos os meus irmãos é o que mais me comove. Gostava tanto que fosse feliz. O meu pai, ao jantar, subitamente velho. Longe dele não é este o pai que lembro. Nem esta a mãe. Velhos ou disfarçados de velhos, é claro. Não morram. Vejam-me lá isso, como dizem os mecânicos, não morram. O sorriso do Miguel. Eu para ali parado, a olhar. Quase nunca falo. Para quê? Dizemos tanto, assim.

António Lobo Antunes, Terceiro Livro de Crónicas, D., D.Quixote, 2006.


Auguries of Innocence

Fevereiro 16, 2006

O livro que esperava há muito.O encontro de Patti Smith com Sylvia Plath.

Every night and every morn
Some to misery are born,
Every morn and every night
Some are born to sweet delight.

William Blake, “Auguries of Innocence”.