Blue
Maio 5, 2008
Lídia Aparício, Maio, 2008, Lisboa.
Espero voltar em Julho para ouvir The Famous Blue Raincoat, entre outras. O azul já lá está.

Lídia Aparício, Maio, 2008, Lisboa.
Espero voltar em Julho para ouvir The Famous Blue Raincoat, entre outras. O azul já lá está.

Pede-se um pão com manteiga e vem também um pardal. É assim na esplanada da Cinemateca de Lisboa. Felizmente não fazia parte do elenco dos Pássaros.

Cinema papel: desenhos de Federico Fellini na Cinemateca. Fellini ao colo do Óscar bem podia ser um momento de Óscares.

Lídia Aparício, Cascais, Maio, 2008.
Um momento inesperado, quando um ciclista passa, antes de um peão.

Lídia Aparício, Cascais, Maio, 2008.
Os barcos estão aportados, os carrinhos estão presos e as caixas dos gelados estão pelo chão. Tazo ou pure energy?

Lídia Aparício, Lisboa, Maio, 2008.
Porque se gosta muito de datas redondas, a faixa comemorativa de 120 de anos lá está na casa onde nasceu Fernando Pessoa. Uma faixa como a nuvem que vai passando. Antes da faixa gostava de ler os versos, aqui ou acolá, pela calçada ou que ,na marginal do Tejo, houvesse uma parede que fosse uma folha.

Lídia Aparício, Cascais, Maio, 2008.
Continua a ser uma das garrafeiras mais bonitas que já vi. As suas paredes são coloridas e com frases, que também poderiam ser ditas numa embriaguez poética. Os versos de Enivrez-Vous, de Baudelaire, não ficavam nada mal nessas paredes.

[As cores de Kandinsky]
O meu amigo Glauco passou-me um jogo de coisas. Apesar de não ser nada dada a estas coisas, agradeço e aceito o convite com a condição de alterar tudo (eheh). Sabendo que a origem do jogo é italiana, não podia ser de outra maneira.
Seis coisas que amo:
palavra : livro : ler : escrevinhar em cadernos sem linhas ; imagem : fotografar , filmar e claro ver cinema e montanhas; som : escutar o mar, a natureza, a música, o silêncio ; água/ar/terra/fogo : nadar, imaginar, viajar, sonhar; mar :cheiro da maresia, força, tranquilidade, infinito ; natureza : estar entre , ar, paz, caminhar. Mais do que coisas, amo pessoas.
Passo este jogo para uma kantiana que gosta destas coisas e que fará uma abordagem kantiana da coisa. Sei que os outros cinco e outros mais não estariam muito interessados. Sabendo mais que é italiano.
Ontem estive na biblioteca de Camilo Castelo Branco, em Famalicão. Queria conhecer a sala Eduardo Prado Coelho. Ainda não entendi muito bem o porquê do espólio do escritor ter ido para a cidade de Famalicão, apesar da justificação estar ligada a um prémio. A sua biblioteca pessoal é impressionante, embora ainda esteja somente uma pequena fatia do total. Predomina o francês, predomina a filosofia. Abri muitos livros. Muitas são as dedicatórias, muitos são os sublinhados e também muito é o silêncio em muitos dos livros, nem uma única marca. Não vi o seu nome, nem data, em qualquer um. Agora um carimbo. Espantou-me um arvoredo de sublinhados pela segunda edição de Húmus, com um grande destaque para “atrás do muro”, no seu índice. Gostei de ver um anagrama, na última folha branca, num canto, com nomes de amigos e não só, em Do Mundo, de Herberto Helder. Às tantos leio, pela voz de Ana Teresa Pereira : O que acontece às personagens quando o escritor vai embora? E a outra pergunta terrível, muito mais terrível: o que acontece ao escritor? . Quando atravessares o rio, página cinquenta. Em A imperfeição da Filosofia, no canto superior de uma das páginas pergunta : há um antídoto para a dor, para a morte? Ou Afinal o futuro era isto, este verso de Rui Pires Cabral é retirado do corpo de um poema para ficar no rosto do livro.
Trazemos connosco toda a música: ela repousa nas camadas mais profundas da recordação. Todo o musical pertence à reminiscência . No tempo em que ainda não tínhamos nenhum nome, já devíamos ter escutado tudo.
E.M.Cioran, Das Lágrimas e dos Santos, citado por Peter Sloterdijk.
Alguns cientistas estão a utilizar os escritos de Thoreau deste modo .
The journals of Henry David Thoreau help scientists in New England investigate global warming’s effect on the timing of spring. Thoreau carefully documented the dates the blueberry bushes bloomed.
Patti Smith apareceu nesta terça-feira passada nas instalações do jornal Libération, com as suas botas pesadas, com a sua polaroid, com as suas convicções fortes. A cantora foi por um dia a chefe de redacção. Como não se podia esperar outra coisa, um dos temas foi a guerra no Iraque. Aqui se pode ver alguns fragmentos do que se passou.

Na cidade não nevava, nem vim de comboio, nem havia pôr-de-sol. Há sempre uma fuga, o mar mais à frente. Nadar dá força, o mar tem essa força maior. É tão bom pensar que houve alguém que passou o rio, saltou a margem, não fugiu, procurou a sua própria essência, não se escondeu, quis a sua liberdade autêntica, a verdade, para além de tudo. Agarrar assim a vida dentro do coração da natureza e assim morrer é muito para a simplicidade bela de um filme, como Into the Wild, de Sean Penn. Mas também é o que chega, porque o resto é feito por quem viu. Vim caminhando, a pensar. Há muito que tenho o Walden ao pé de mim. Guaranteed.
XIV
eu via nela tanta beleza
que não resisti à vontade súbita de brincar com ela.
Dei a Dickinson uma carta e, na volta do correio, recebi notícias sobre o absurdo do tempo, sobre pirilampos e outros still lives.
Dei a Rilke o meu cavalo, e ele ofereceu-me uma matilha de cães adestrados para o combate, o que, no meu caso, era absolutamente um luxo superior às minhas posses.
Dei a Rimbaud a parte mais recôndita desta casa e, no escuro mais espesso, não resistiu a mostrar-me a sua nudez musical.
Dei a Musil uma balança que não pende mais para um lado do que para outro e, na sua hesitação, esperou por mim.
Dei a Hölderlin, o velho, meu irmão, uma bilha e a minha tristeza quebrou-se.
Dei a Aossê uma família de aves e ele iluminou-me a fisionomia do rosto.
Entreguei ao meu ambo o estudo da terra e ele criou uma atmosfera propícia à minha alegria.
Dei à rapariguinha que me atacava de surpresa, com pequenas forças, um rebento que nasceu ao pé da tília do jardim.
E não tem medo da morte? Tenho, ao raiar do dia.
Nasceu, então, o primeiro riso entre nós.
E ela disse-me que eu seria natural em todas as coisas.
Natural? Quereria ela dizer “espontânea”? Não, queria dizer “naturalmente”.
E, de repente, eu soube naturalmente que haveria entre nós um combate mortal,
vida contra vida
porque todos somos incompletos a certas horas do dia.
Maria Gabriela Llansol, Onde vais, drama-poesia?, Relógio d’ Água, pág 79 e 80.

Porto, Fevereiro,2008.
Uma luva preta a vaguear no rio Douro. Visível num domingo de sol, de Fevereiro. Talvez pudesse também ser um verso de uma canção de Carla Bruni, por cantar. No próximo, Bruni chamou todos.
São mais as críticas negativas que leio sobre a Byblos que positivas Mais uma. Por causa do cheiro da feijoada, há sempre isto.
Quando as ideias são cada vez mais escassas, um grupo de marketing lembrou-se disto.
Gostei : how to: make a dictionary wall.
Tenho pena que Fernando Meirelles tenha deixado o seu diário, como o final de um filme de Kieslowski, sem aviso. Ou será que volta?
O acto de filmar com um acto de respigar. Folhas caídas, filmado em Janeiro de 2007, no Palácio de Cristal, Porto. Tempo:00:49.

Porto, Janeiro 2008.
No ano em que passam cem anos do nascimento de Simone de Beauvoir, regresso ao Sangue dos Outros. Releio os sublinhados. É curioso. Se voltasse a lê-lo hoje, não seriam certamente os mesmos sublinhados.
Página 56, traduzida por Miguel Serras Pereira.
“Isto não adianta nada”, disse ela. Encostou-se a uma árvore. O tronco estava a escorrer de nevoeiro líquido, gotas geladas caíam dos ramos nus; Hélene sentia o frio que fendia cada fibra do seu corpo. Retomou a marcha. “Isto não adianta nada”, repetia ela. De toda a maneira, ficava-se no mesmo sítio, como nos pesadelos. Progredir, recuar; não havia meta.

Leonardo da Vinci uma vez projectou a sua urbe ideal do seguinte modo e em linhas gerais : uma cidade com dois pisos que se comunicariam por escadas. No piso do baixo andariam as carroças de animais de carga,e no piso de cima as pessoas. É verdade que gerou algumas dicotomias. No entanto, as preocupações eram de foro de saúde pública. Um meio para afastar a peste também.
Pergunto-me utopicamente se tal poderia acontecer numa época como a nossa. A cidade do Porto com duas camadas.
Um desenho para Metropolis de Fritz Lang.

Manuel Gusmão começa as suas Migrações de Fogo: Tudo parece ter outra vez começado e termina com E tudo poderá talvez recomeçar. Este E já é o novo ano.
Continuo a pensar no que disse Eduardo Lourenço na entrevista apresentada no último capítulo de Câmara Clara. A música como salvação. George Steiner num dos seus livros conta como Wittgenstein salvou-se pela música. Também por causa deste filo-café.
Amanhã Sam Shepard deixa a cidade do Porto e neste fim-de-semana já teremos as Luzes no Crepúsculo. Há muito que espero pela luz de Kaurismaki.
Por causa da discutível lei sobre o tabaco, espero também que se venda muito Smoking/No Smoking de Alain Resnais.
Às voltas com Telephone Ringing in the Labyrinth.