O tempo do lobo

Abril 26, 2008

O primeiro plano:

O último plano :

 fotogramas de O Tempo de Lobo, Michael Haneke, 2002.

O Tempo do Lobo, de Michael Haneke, só podia ser um filme inquietante. Inquietação é o selo do seu cinema. Neste filme, o realizador austríaco quis filmar uma situação extrema, uma catástrofe, os últimos dias de vida na terra, algo do género. Haneke não entra nos clichés. Por isso, temos o mais duro e cruel, sem algum “efeito”. Aqui vemos, em primeiro plano, um carro a chegar da cidade a uma casa, no meio de muitas árvores. Vemos uma família a retirar coisas do carro, tudo parece ser normal e pacífico, até entrarmos na casa. A casa é “ocupada” por outra família estranhamente. Face a isto, há uma morte. Quem tenta dialogar, o homem que chega, morre sem meias palavras a mais. Anne (Isabelle Huppert) vê-se então com o filho e a filha a bater de porta em porta, numa errância, em busca de ajuda. Às tantas, parece ser só o fogo o elemento mais precioso, ou melhor, um isqueiro que se acende no meio de total escuridão, em busca de um dos filhos. A errância é interrompida numa estação de comboios, à espera de um comboio que pare. Permanecem aí, com mais um grupo de famílias fugitivas. A situação de vida é muito precária, reina a moeda de troca, troca-se tudo, até água. Face a este cenário, vários são os comportamentos: Anne chora, a filha pergunta e procura o outro,o filho permanece mudo, indiferente à chuva, e mais adiante tenta imolar-se, como fosse a salvação da sua inocência, ou por desespero. Talvez seja isto que Haneke quisesse, como que o humano se comportaria numa situação tão extrema. Não sabemos qual é o tempo e o local em que o filme se desenrola.

É um dos finais mais interessantes que já vi em cinema. Primeiro, surpreende-me. De um corte de uma cena para outra ,Haneke coloca-nos num comboio em andamento. Não sabemos quem vai lá, quem sobrevive. Eles ou nós? Um travelling para a frente, somente paisagem e mais paisagem. 

Fez-me lembrar a “A Hora do Lobo” de Ingmar Bergman.


Único

Abril 23, 2008

Lídia Aparício, Nick Cave no Coliseu do Porto, Abril 2008.

Depois de algumas tentativas, consegui fotografar o suor no rosto de Nick Cave. Não estava fácil. Entre a fantástica Tupelo e a linda balada Straight to You , à espreita de um gesto, de uma expressão.


Both Sides Now

Abril 23, 2008

I’ve looked at life from both sides now,
From win and lose, and still somehow
It’s life’s illusions I recall.
I really don’t know life at all.

Joni Mitchell


Segunda-feira

Abril 21, 2008

Comecei a semana ouvindo esta estupenda canção, interpretada de uma forma extraordinária por Charles Aznavour e Liza Minnelli, graças à antena 1.


Os olhos da noite

Abril 21, 2008

Cristina, depois de ter visto o filme, fiquei a pensar : como é que a Ana vê o filme agora? Com que olhos ? E também não tem importância nenhuma  perguntar isto. A Ana que foi os olhos de todo o filme. Para além dessas descobertas de que falas, também vejo o poço e a casa, como dois elementos importantes. Duas casas, uma quase sempre com portas abertas no seu interior, e outra casa, fora da aldeia, vazia, sem portas, escuras na sua distância, dois olhos escuros. Tudo nela pode habitar, da morte aos espíritos. Ana ronda sempre um poço, quando volta a essa casa, joga com a morte como fosse um pião. É impressionante a cena, em que o primeiro plano se foca a tela do cinema, no local onde foi projectado o filme de Frankstein, e depois esse plano vai descendo ao cadáver. Da ficção ao real, em pouco segundos, imagem dentro de imagem. Às tantas, o filme, as crianças fizeram-me lembrar The Night of The Hunter.


O melhor fim

Abril 21, 2008

Lídia Aparíco, Abril 2008, Porto.


De passagem

Abril 21, 2008

Lídia Aparício, Abril 2008, Porto.


O estaleiro do Ouro

Abril 21, 2008

Lídia Aparício, Abril 2008, Porto.

Um barço do estaleiro do Ouro, na Cantareira, há pouco tempo renovado. Aqui o carrinho é outro.


Cuidado. Vem aí a Caravana.

Abril 18, 2008

Amanhã a cidade do Porto estará em alerta vermelho. Está previsto a chuva de uma macieira por volta das 16h31. A apanha da laranja será na Livraria Gato Vadio  (Rua do Rosário, 281).


O Homem sem qualidades

Abril 18, 2008

Hoje o suplemento ípsilon faz um grande destaque ao Homem sem Qualidades, de Robert Musil e com uma entrevista ao tradutor João Barrento.

Não lhe parece que o tempo em que vivemos, marcado pela rarefacção de um real que possamos sentir como nosso, acaba por ser um tempo adequado à leitura deste livro?

É verdade. Desde que o leitor actual esteja disposto a ler um livro denso, e que ficará com umas duas mil páginas que é o tamanho da “Recherche” do Proust. Pode levá-lo para férias e lê-lo no Verão.

Quem comprar logo os dois volumes, pode sempre aproveitar nestes dias este desconto.  Ou o prazer da leitura.


Jogo de coisas

Abril 18, 2008

[As cores de Kandinsky]

O meu amigo Glauco passou-me um jogo de  coisas. Apesar de não ser nada  dada a estas coisas, agradeço e aceito o convite com a condição de alterar tudo (eheh). Sabendo que a origem do jogo é italiana, não podia ser de outra maneira.

Seis coisas que amo:

palavra : livro : ler : escrevinhar em cadernos sem linhas ; imagem : fotografar , filmar e claro ver cinema e montanhas; som : escutar o mar, a natureza, a música, o silêncio ; água/ar/terra/fogo : nadar, imaginar, viajar, sonhar; mar :cheiro da maresia, força, tranquilidade, infinito ; natureza : estar entre , ar, paz, caminhar. Mais do que coisas, amo pessoas.

Passo este jogo para uma kantiana que gosta destas coisas e que fará uma abordagem kantiana da coisa. Sei que os outros cinco e outros mais não estariam muito interessados. Sabendo mais que é italiano.


Interior

Abril 17, 2008

Vilhelm Hammershøi,
Interior, Strandgade 30, 1903.


Ver uma vez não chega

Abril 16, 2008

O lance do poema

Abril 16, 2008

Quando o mar é pela voz de Adriana

Abril 16, 2008

Três

Um
Foi grande o meu amor
Não sei o que me deu
Quem inventou fui eu
Fiz de você o sol
Da noite primordial
E o mundo fora nós
Se resumia a tédio e pó
Quando em você tudo se complicou

Dois
Se você quer amar
Não basta um só amor
Não sei como explicar
Um só sempre é demais
Pra seres como nós
Sujeitos a jogar
As fichas todas de uma vez
Sem temer naufragar
Nao há lugar pra lamúrias
Essas não caem bem
Não há lugar pra calúnias
Mas porque não
Nos reinventar

Três
Eu quero tudo o que há
O mundo e seu amor
Não quero ter que optar
Quero poder partir
Quero poder ficar
Poder fantasiar
Sem nexo e em qualquer lugar
Com seu sexo junto ao mar

Música de Marina Lima e poema de António Cícero. Interpretado de forma estupenda por Adriana Calcanhotto.
E Maré desdobra-se em marés.


A música de L’amour à mort

Abril 15, 2008

Fotogramas de L’Amour à Mort, de Alain Resnais.

 


As divisões

Abril 15, 2008

A divisão começa logo no início com as divisões da casa, a janela é a mesma para dois espaços divididos por uma parede, ou aqui ficamos congelados ou ficamos sufocados,diz uma das personagens, na primeira casa que visita. A divisão percorre todo o filme, desde da divisão de espaço na imobiliária até a divisão de um balcão, de dentro para fora e, na verdade, estão todos a cantar a mesma canção. Uma canção em que a toada é a solidão. Toda essa solidão de divisões para espaços como atrás de um balcão, o canto de uma mesa de um restaurante barulhento,o canto de um sofá. Todas essas casas têm como pano de fundo uma janela de neve constante, tão artificial, que só foca aqui o palco do que se passa à frente. Ou a neve constante que é retirada dos casacos, um inverno gelado, o coração frio. Ou a neve igual a que temos em L’Amour à Mort, que é constante num separador negro, a prolongar emoções, a desdobrar tempos, o ritmo da música. As personagens movimentam-se como estivessem a seguir traços de giz de um encenador , não surpreende aqui. Aqui ou acolá o filme puxa-nos um sorriso ou riso.Há um diálogo delicioso com a cassete de video, na imobiliária. Numa teia de momentos cómicos e dramáticos, a televisão leva as suas alfinetadas merecidas. Coeurs de Alain Resnais, em grande forma.


O vento

Abril 12, 2008

Fotogramas de Quando uma mulher sobe as escadas, de Mikio Naruse.

It had been a bleak ordeal,

like a harsh winter

 

but the trees that line the streets

can sprout new buds

 

no matter how cold the wind.

 

I too must be just as strong

 

as the winds that gust around me.


A sala Eduardo Prado Coelho.

Abril 9, 2008

Ontem estive na biblioteca de Camilo Castelo Branco, em Famalicão. Queria conhecer a sala Eduardo Prado Coelho. Ainda não entendi muito bem o porquê do espólio do escritor ter ido para a cidade de Famalicão, apesar da justificação estar ligada  a um prémio. A sua biblioteca pessoal é impressionante, embora ainda esteja somente uma pequena fatia do total. Predomina o francês, predomina a filosofia. Abri muitos livros. Muitas são as dedicatórias, muitos são os sublinhados e também muito é o silêncio em muitos dos livros, nem uma única marca. Não vi o seu nome, nem data, em qualquer um. Agora um carimbo. Espantou-me um arvoredo de sublinhados pela segunda edição de Húmus, com um grande destaque para “atrás do muro”, no seu índice. Gostei de ver um anagrama, na última folha branca, num canto, com nomes de amigos e não só, em Do Mundo, de Herberto Helder. Às tantos leio, pela voz  de Ana Teresa Pereira : O que acontece às personagens quando o escritor vai embora? E a outra pergunta terrível, muito mais terrível: o que acontece ao escritor? . Quando atravessares o rio, página cinquenta. Em A imperfeição da Filosofia, no canto superior de uma das páginas pergunta : há um antídoto para a dor, para a morte? Ou Afinal o futuro era isto, este verso de Rui Pires Cabral é retirado do corpo de um poema para ficar no rosto do livro.


Audição fetal

Abril 8, 2008

Trazemos connosco toda a música: ela repousa nas camadas mais profundas da recordação. Todo o musical pertence à reminiscência . No tempo em que ainda não tínhamos nenhum nome, já devíamos ter escutado tudo.

E.M.Cioran, Das Lágrimas e dos Santos, citado por Peter Sloterdijk.