Modos de Ver
Vemos uma paisagem de uma seara com pássaros que levantam voo. Observe-a por um momento. Depois, vire a página.
(c) Van Gogh, Seara com Corvos.

(Este é o último quadro que Van Gogh pintou antes de se suicidar.)
É difícil definir exactamente como as palavras modificaram a imagem, mas é certo que o fizeram. Agora, a imagem ilustra a frase.
John Berger, Modos de Ver, Edições 70,pág 31 e 32.
Setembro 6, 2006 às 1:17 pm
Já me tem acontecido isto. É certo que depois a frase me fica a soar durante dias, semanas, mas ainda assim a imagem não passa a ilustrá-la. Muda, sim, por efeito da frase, torna-se muito maior, se antes era difícil, depois de uma frase assim torna-se impossível chegar-lhe a todos os cantos, as sombras tornam-se maiores e tudo passa a ser tão insondável que eu não consigo deixar de olhar. Lembro-me de uns retratos de umas crianças que pareciam anjos porque estavam com roupas brancas, as fotografias tinham sido tiradas devagar e eles mexiam-se muito. Vi algumas e depois: era um hospício para miúdos loucos. Depois volta-se atrás, não é?, e demora-se muito mais tempo em cada fotografia, tanto tempo que algumas se tornam inesquecíveis, existenciais, como um ano que tívessemos passado a viver numa cidade estranha e todos os seus souvenirs.
Setembro 24, 2006 às 11:32 pm
é curioso como a técnica de van gogh se assemelha ao nevoeiro desfocado com que um míope percepciona o redor distante. e o que na “realidade”distorce os ângulos, num quadro de van gogh é lindo…